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A liberdade de dizer não

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A democracia dá-nos o direito de escolher, mas continua a negar a alguns o direito de recusar. Entre a oportunidade e a obrigação, há um ‘não’ que ainda não é livre.

Celebramos, e bem, o 25 de abril como o grande momento da liberdade em Portugal. Os cravos devolveram-nos a voz, os direitos e a imaginação de uma vida menos ditada pelo destino social. Mas, com o tempo, partes dessa liberdade foram-se diluindo. Uma dessas, talvez das mais subtis, é a de dizer “não”.

Falamos muito da liberdade de escolher e ainda bem. Falamos do acesso à escola, à universidade, à mobilidade social... Tudo isso importa e tudo isso é abril. Mas, nem todos chegam ao momento da escolha com a mesma margem. Para alguns, a oportunidade é uma possibilidade. Para outros, torna-se uma obrigação moral.

Penso nisto muitas vezes quando encontro pessoas em contextos de vulnerabilidade. Quando falamos de pessoas em vulnerabilidade social, há sempre uma expectativa de gratidão. É esperado que aceitem tudo de bom grado, que participem e, preferencialmente, que estejam motivadas. Como se tudo o que lhes é dado tivesse de ser necessariamente bom. Mas e se não for o momento certo? E se não for a oportunidade adequada àquele jovem? Porque é que rotulamos o jovem, que vive num contexto social vulnerável, que recusa integrar um “programa de empreendedorismo” porque não se identifica com ele, de ingrato? Ou a aluna que, beneficiando de uma bolsa total de estudos, decide desistir da universidade, de alguém que não sabe aproveitar o que lhe dão? Porque é que, por viverem em vulnerabilidade, têm de aceitar o que a sociedade decidiu ser bom para eles?

Quando alguém socialmente privilegiado recusa um caminho esperado, faz uma pausa, recusa uma oportunidade, ou muda de rumo, essa decisão é lida como irreverência, autenticidade ou coragem. Contudo, quando o mesmo gesto vem de quem vive em vulnerabilidade social, a leitura muda: passa a ser irresponsabilidade, ingratidão ou até desperdício.

Não é apenas perceção: a investigação mostra que o estatuto social condiciona a forma como vivemos a própria escolha. Quem cresce com menos recursos, rede e segurança encara a decisão menos como um ato de liberdade e mais como um risco. A liberdade formal pode ser igual, a liberdade real, sobretudo a de recusar, não é.

É aqui que a nossa ideia de liberdade se fragiliza. Dizemos que todos são livres, mas só alguns podem sê-lo sem culpa. Aos outros, concedemos direitos com uma condição implícita: que aceitem, que aproveitem, que correspondam. Como se a liberdade fosse plena apenas para quem já tem chão onde cair.

Talvez seja aqui, entre muitas outras partes da liberdade perdidas, que Abril se continua por cumprir. Uma democracia não se mede apenas pelas portas que abre, mas também pela dignidade que reconhece a quem escolhe não entrar. Enquanto o “não” continuar a ser um privilégio socialmente desigual, continuaremos a celebrar abril como memória, não o vivendo inteiramente como prática.

Artigo publicado no âmbito de uma parceria entre o Expresso e o Global Shapers Porto Hub.


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