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Redescobrir o valor operacional nos setores tradicionais

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13.04.2026

Durante anos, investir era sinónimo de estruturar capital. Num contexto de dinheiro desvalorizado, a rentabilidade vinha muitas vezes de alavancagem e de engenharia financeira. Esse ciclo terminou. Hoje, com o custo do capital mais elevado e avaliações mais realistas, o investimento voltou ao essencial: criar valor real nas empresas.

Nos negócios de dimensão média, quer sejam industriais, logísticos ou de serviços B2B (Business-to-Business - transções entre empresas), o valor já não se cria em modelos financeiros sofisticados. Cria-se nas decisões do dia a dia: como se define um preço, como se gere o stock, como se planeia a produção ou como se responsabilizam equipas. É aqui que, na prática, se separam os investidores que falam de valor operacional daqueles que o conseguem efetivamente executar.

Estas organizações têm, de modo geral, duas características comuns: uma procura relativamente estável e uma elevada complexidade operacional. E é precisamente essa complexidade que cria oportunidade. Muitos destes negócios são estruturalmente bons, com clientes fiéis e produtos competitivos, mas acumulam decisões adiadas durante anos. Criar valor começa por enfrentar essas decisões.

Um erro comum é tentar “transformar tudo” ao mesmo tempo. Na prática, as equipas que geram impacto rápido concentram-se em poucas alavancas críticas, claramente priorizadas, com responsáveis definidos e métricas simples. Um plano de 100 dias bem executado cria mais valor do que uma estratégia perfeita nunca implementada.

Há alguns exemplos recorrentes destes quick wins, tais como o princing, a gestão de stocks e capital e a produtividade operacional. Relativamente ao pricing, em empresas industriais e de serviços B2B, é frequente encontrar portefólios com preços historicamente desajustados, serviços adicionais não cobrados ou descontos desajustados. Num caso típico, o primeiro passo não foi aumentar preços de forma transversal, mas identificar produtos e clientes com baixa sensibilidade ao preço e rever apenas esses pontos. Em poucas semanas, pequenos ajustes, acompanhados por guidelines claras para a equipa comercial, geraram um impacto relevante no EBITDA, com risco controlado e sem perda de clientes-chave. Hoje, com ferramentas analíticas mais avançadas, estas decisões deixaram de ser intuitivas e passaram a ser suportadas por dados.

Outra fonte clássica de “vitórias rápidas” está no capital imobilizado na operação. Stock excessivo e prazos de recebimento longos continuam a ser comuns em empresas tradicionais. Em vários contextos, bastou rever políticas de stock de segurança, eliminar unidades de stock de baixa rotação e impor maior disciplina na gestão de crédito para libertar caixa em menos de um trimestre. Não se tratou de cortar serviço, mas de tornar explícitas decisões que antes ninguém assumia. O efeito é imediato: balanços mais robustos e capacidade de financiar crescimento sem recorrer a uma dívida ainda maior.

A terceira alavanca está na produtividade operacional. Em fábricas e operações logísticas sem uma cultura consistente de melhoria contínua, intervenções simples, como a normalização de processos, um planeamento diário ou uma melhor manutenção preventiva, eliminam ineficiências visíveis para quem está no terreno, mas ignoradas durante anos. Quando combinadas com ferramentas digitais e modelos preditivos, estas melhorias deixam de ser pontuais e tornam-se estruturais.

Contudo, nada disto funciona sem pessoas. A tecnologia acelera, mas não substitui liderança nem responsabilização. Em muitos casos, a criação de valor começou com a entrada de um ou dois perfis-chave (um responsável de pricing, um diretor de operações ou um especialista em dados), que deram às equipas as ferramentas e a clareza que sempre faltaram. Curiosamente, adicionar capacidade crítica gera muitas vezes mais valor do que cortes indiscriminados de custos.

Também por isso, a consolidação de setores tradicionais só faz sentido quando está ancorada numa lógica operacional clara: ganhar escala para operar melhor. Sem disciplina na execução, a consolidação apenas amplifica problemas existentes.

Num mundo onde o capital é mais valioso e a margem para errar é menor, a criação de valor regressou às bases. Os investidores e gestores que compreendem que o verdadeiro retorno está nas operações (e não apenas na estrutura financeira) são os que vão liderar a próxima vaga de campeões industriais.


© Expresso