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A janela de oportunidade que levou os EUA a atacar o Irão

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O ataque norte-americano ao Irão, iniciado na manhã de sábado, não é um impulso de última hora. Era previsível.

A mobilização contínua de meios militares dos Estados Unidos para o Médio Oriente, desde janeiro, tornava praticamente inevitável um desfecho desta natureza.

Dois grupos de porta-aviões, centenas de aeronaves de várias valências operacionais e reforço de meios em bases na região não constituem uma mensagem diplomática com efeito dissuasor.

A decisão de Washington insere-se num objetivo inscrito na estratégia de segurança nacional norte-americana: retirar de cena o que considera ser o principal fator de desestabilização regional, o Irão. O momento escolhido não é aleatório.

O regime iraniano atravessa uma das fases mais delicadas das últimas décadas. Os protestos brutais no início do ano, reprimidos com milhares de mortos, fragilizaram profundamente a estabilidade interna. A própria geografia do Irão, que historicamente funcionou como barreira defensiva contra ameaças externas, revelou-se um obstáculo no controlo simultâneo de múltiplos focos de contestação interna, devido à dispersão populacional, terreno acidentado e fragilidade das vias de comunicação.

No plano regional, o chamado “crescente xiita” sob liderança iraniana encontra-se fragmentado e enfraquecido. O Hezbollah sinalizou há dias que não reagiria a um ataque limitado. A Síria continua debilitada. O Iraque permanece dividido. A rede operacional que sustentava a projeção de poder iraniana não está no seu momento mais forte.

Para Washington, esta é a melhor janela de oportunidade estratégica. Israel partilha esse cálculo por razões evidentes de segurança existencial. A Arábia Saudita, por motivos distintos, converge no objetivo de reduzir o peso estratégico de Teerão. O alinhamento entre Estados Unidos, Israel e vários Estados árabes sunitas não é circunstancial.

A arquitetura militar norte-americana na região confirma essa leitura. O USS Abraham Lincoln, estacionado no Mar Arábico próximo do Golfo de Omã, assume a função ofensiva: é o “ponta de lança”, com capacidade de projetar poder diretamente sobre o espaço aéreo iraniano.

O USS Gerald Ford, ao largo de Israel, desempenha o papel “defensivo” de escudo, reforçando as capacidades de interceção contra drones e mísseis iranianos. Num cenário prático, qualquer ataque do Irão contra Israel ocorrerá no mesmo espaço aéreo onde opera o USS Gerald Ford. A separação entre atacar Israel e atacar ativos dos Estados Unidos torna-se praticamente inexistente.

Uma intervenção terrestre está fora de questão. O Irão é uma fortaleza geográfica e um cenário de combate extremamente complexo. Mobilizar tropas norte-americanas neste contexto seria um pesadelo operacional para as forças norte-americanas e um desastre político para a base eleitoral que apoia o Presidente Trump.

Contudo, o ciclo de ação-reação já começou. Teerão retaliou não apenas contra Israel, mas também contra países do Golfo que acolhem bases militares norte-americanas.

Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrain, Qatar, Kuwait e Jordânia entram agora na equação operacional. A Arábia Saudita já declarou disponibilidade para apoiar uma resposta conjunta dos restantes estados do golfo, ao contrário da posição adotada no início do mês. Este alargamento regional aumenta exponencialmente a imprevisibilidade.

Existe ainda uma variável adicional: a China. Nos últimos dois meses, Pequim intensificou o envio de equipamento militar para o Irão, incluindo capacidades que poderão ter natureza hipersónica. Caso a escalada evolua para um confronto mais amplo, essa dimensão tecnológica poderá alterar significativamente o equilíbrio de risco.

Do ponto de vista geoestratégico, um dos ganhos potenciais para Washington poderá ser a tentativa de conter as exportações energéticas iranianas, com impacto indireto sobre a China, padrão já observado na Venezuela.

Os ataques dos EUA e de Israel podem fragilizar ainda mais um regime já pressionado internamente, mas também produzir o efeito inverso: consolidar os setores mais duros em Teerão empurrando o país para uma postura ainda mais agressiva.

O Médio Oriente entra, novamente, numa fase de reconfiguração profunda. As relações entre sunitas e xiitas, o papel de Israel, o posicionamento da Arábia Saudita e dos Estados do Golfo serão inevitavelmente redefinidos.

A decisão de Washington foi calculada. O resultado, contudo, permanece em aberto.


© Expresso