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O fenómeno Rita Matias

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12.03.2026

Sou escritora. Gosto de ficção. Em frente a um computador, inventei pessoas, cidades, relações, amores, sofrimentos, expectativas, quebras de expectativas, sonhos, desilusões, nascimentos, mortes, pratos, chuvas, queimaduras, violências, paixões, aproximações, rejeições, afastamentos, velocidades, lentidões, abdominais vincados, gorduras, entusiasmos e lassidões. Até inventei a cabeça de um Deus a inventar um dinossauro. Ainda assim, nem nos meus sonhos mais audazes eu ousaria voar ao ponto de fazer a cabeça de Rita Matias, muito menos de fazer as cabeças que assentem atrás dela.

Para percebermos a eficácia da sua figura oratória, não há como ignorar a questão mediática que lhe vai beber à juventude – escudo simbólico em que a inexperiência é confundida com autenticidade. Por muito que não traga ideias novas e recicle preconceitos antigos, Matias fez da idade uma ferramenta retórica e disfarçou qualquer posição de frescura, irreverência. Ora, estando esta mesa posta, seguiram-se os primeiros voos, com a deputada a navegar no óbvio, dizendo o óbvio. Os seus primeiros tempos na ribalta mostraram uma agenda política reduzida ao fim das casas de banho mistas nas escolas, ou seja, quis acabar com uma coisa que nunca existiu. Em congressos do Chega e em intervenções na assembleia da república, fez com que o país perdesse tempo com esta não-questão e arrebanhou fãs. Indignou-se, fez indignar e a seguir cavalgou o ânimo da indignação, transformando-se no Duchamp da política portuguesa: nunca ninguém subiu tanto na vida por causa de urinóis.

O voto no Chega é masculino, bem se sabe, e a defesa dos homens que Rita Matias fez não lhes passou ao lado. Ignorando todos (todos!) os estudos científicos feitos sobre discrepâncias sociais entre os sexos (na segurança, nos salários, nos cuidados à família), criou a figura do homem branco como injustiçado. Ora, esse homem, que se sentia desfavorecido noutras áreas (laboral, social, romântica), passou a ter um megafone para a sua frustração, e o ressentimento acumulado encontrou em Rita Matias um terreno fértil de apoio.

Daqui à “ideologia de género” foi um salto. Contra gente concreta, a deputada do Chega criou uma luta abstrata, enquanto, pela internet fora, fez grassar um discurso que sugeria aos incautos que as políticas educativas estavam desenhadas para convencer as crianças a mudarem de sexo. Não satisfeita com isto, indignou-se com a página de um livro em que há um menino de saia. O seu eleitorado-alvo, ao vê-la zangada com a indumentária de uma personagem fictícia, conseguiu ver outra coisa: alguém que elevava ao lugar onde se fazem leis o discurso do “também não acho graça”. O gosto pessoal saltou, assim, do campo individual para o político. Com o algoritmo a dar gás, o parlamento passou a ser um espaço de amplificação de questões que não exigiam sequer enquadramento.

Ao mesmo tempo, Rita Matias começou a defender políticas migratórias mais restritivas, correlacionando a criminalidade com a imigração, apesar de ter sido desmentida pelos dados oficiais – de nada adiantou, uma vez que a deputada começou a dizer que os dados oficiais tinham tiques de Pinóquio. No debate percepções versus factos, defendeu sempre as percepções, e ajudou a criar uma clima de insegurança, criando o medo dos migrantes e, ao mesmo tempo, da PJ, do “sistema”, desses que nos enganam a todos. Em simultâneo, espraiou mentiras novas, como a ideia de que os imigrantes têm prioridade no acesso às creches. Fazendo política na velocidade estonteante do TikTok, apelou a esse eleitorado perdido na voragem do online – ei-lo, por isso, a acreditar na solução, o que implica acreditar também no problema.

Para manter a ideia de anti-sistema, a que ajuda o facto de não ter qualquer experiência profissional ou política relevante antes de ter virado braço direito de Ventura, Rita Matias contestou ainda políticas de apoio social que considerava excessivas. Ora, também essas tinham cunho racial (sempre os ciganos, os ciganos) e também essas tinham cunho xenófobo (sempre os imigrantes, os imigrantes), o que permitia identificar um alvo e um culpado. Inventando um Tesla para cada beneficiário do RSI, sem nunca mencionar que as crianças equivalem a um terço dos beneficiários e as famílias numerosas a metade, e sequer sem saber o valor do apoio, usou a velha estratégia de pôr os de baixo contra os de mais abaixo ainda. Integrou isto na crítica ao sistema enquanto fingia que não fazia parte dele, continuando a receber o seu salário financiado por impostos, equivalente a 3,9 salários mínimos e 2,14 salários médios mensais, fora extras. O seu público-alvo ouviu apenas a crítica.

Com 104 mil seguidores no TikTok, fabricando temas, substituindo o dado pela sensação, usando o ressentimento como matéria-prima eleitoral e servindo-se da juventude como blindagem simbólica, Matias fala sempre para as camadas jovens, quase sempre mais jovens do que ela, e quase sempre através de vídeos emotivos e provocatórios. Claro que a sua fórmula seria eficaz: compreendeu que a política já não disputa argumentos, mas alcance, e mudou-se para essa área de disputa, em que se obedece ao ritmo do algoritmo e não do hemiciclo.

Outrora. vencia quem sustentava melhor uma tese; hoje, quem produz o vídeo com mais partilhas. O parlamento virou cenário, o telemóvel virou tribuna e as redes sociais transformaram-se em canais de comunicação à margem que não obedecem aos códigos deontológicos da comunicação social – eis propaganda mascarada de notícia. A indignação transformou-se numa forma de capital político, capaz de produzir visibilidade, criar pertença, consolidar tribos. Quanto maior é o alarme, maior é o alcance – a política algorítmica recompensa o exagero e penaliza a nuance. Quem grita primeiro consegue o enquadramento do debate. Matias capitaliza tudo isso e ainda capitaliza o sistema que diz criticar, num momento histórico em que a política deixou de disputar soluções e passou a disputar indignações teatrais.

Rita Matias é por isso a face desta tragédia que nos assola enquanto país: perante uma cultura política cada vez mais moldada pela lógica da visibilidade, a mobilização sobrepôs-se à análise. A sua eficácia online espelha estes tempos em que o algoritmo substituiu o argumento e em que inventar problemas rende mais do que resolvê-los.


© Expresso