Manosfera: a misoginia dá dinheiro
As notícias recentes não auguram nada de bom. A maioria dos rapazes millennials e da geração Z acha que os direitos das mulheres ameaçam os homens. Cresceu a violência no namoro. Há mais violações entre menores. A ciberviolência está cada vez mais sexual. Os extremos têm atraído o voto masculino. E tudo o que é influenciador de masculinidade identificou um alvo para onde os rapazes infelizes podem apontar o dedo: sem surpresa, as mulheres.
Estes influenciadores digitais, como Andrew Tate ou Harrison Sullivan, sugerem que ser homem implica ser violento, arrogante, dominante. Nesta conceção, a mulher é pouco mais do que régua alheia, medindo a força do seu líder, um misto de prisioneira e conquista. Não deve trabalhar, sair de casa, votar, ter qualquer papel na vida cívica, interesses ou passado, e ai jesus se algum dia fala com o vizinho.
Na cabeça destes influenciadores, as mulheres são uma coisa muito à parte. Não são bem pessoas de pleno direito, não são vistas como cerebradas, cerebrais, racionais. Parecem uma amálgama de emoção incontida, perante homens que advogam a incapacidade de os outros homens se conterem. Fartam-se de dizer que cada um é uma ameaça, reciclando o discurso misógino de forma a acantonar as mulheres no espaço doméstico: o lar deve bastar-lhes, esfregar manchas de sopa deve trazer-lhes satisfação e qualquer interesse que tenham é uma ameaça à família, à ordem natural do mundo, ao bem-estar masculino.
Tudo isto cai em saco roto e o processo é sempre o mesmo. A agressividade cria um nicho, uma redoma – e só por existir já parece vingar alguma coisa. Estabelece-se o conceito, entende-se o mecanismo, abdica-se de escrúpulos, e a partir daí é sempre a subir – dá-se de comer ao algoritmo como a um cão de boca aberta. Cria-se conteúdo online, partilham-se frases polémicas, viraliza-se, ganha-se atenção; gravam-se vídeos sobre fitness e estilo de vida; monetariza-se. O influenciador masculino segue o modelo à risca: é musculado, agressivo, conservador, misógino, homofóbico e rico. A riqueza faz parte da performance, faz parte de ser homem, esse que precisa de sustentar a mulher e cujo valor pessoal e social se mede pelos quilos de massa magra e milhares no banco. Ora, o modelo pega e é vendido através de muitas farsas, como a promoção de casinos ilegais ou conselhos financeiros questionáveis sobre criptomoedas e investimentos. Quem os segue investe, transferindo dinheiro para o outro lado. O outro lado enriquece mais, ostenta mais, ganha mais autoridade. E assim se alimenta a roda.
Os charlatães do mundo moderno têm deltóides desenvolvidos, iPhone numa mão, batido de whey na outra, e muitos cifrões em frente aos olhos, além de mulheres despidas. O conservadorismo defendido não é então senão um embuste. Enquanto desprezam a vida sexual das mulheres, lucram com elas: Tate tinha escravas sexuais a render na internet, Sullivan publicitava ligações do OnlyFans, ficando com uma percentagem do dinheiro arrecadado.
Ora, o discurso que corre na manosfera – ora conservador, ora bélico, ora épico – funciona porque responde a um vazio. Rapazes perdidos encontram ali uma narrativa simples, quase infantil, que lhes permite a redenção: o mundo deve-lhes alguma coisa, foram as mulheres que lhas tiraram. Nisto, anula-se qualquer reivindicação relativa ao sistema económico, qualquer pensamento sobre a precariedade laboral, qualquer coisa. As mulheres são o alvo fácil, e ainda por cima rápido, e ainda emocionalmente satisfatório. O discurso da manosfera pega porque não se alimenta de uma guerra de sexos, mas de uma crise de identidade masculina, e os rapazes são o público-alvo que interessa arrebanhar para, em simultâneo, radicalizar e monetarizar. Ora, essa radicalização olha para a conquista dos direitos das mulheres como furtos da primazia dos homens, ao mesmo tempo que se vende a ilusão do regresso a um passado que nunca existiu como é apregoado, mas que é o El-dorado dos homens: eles a mandar no mundo, elas em casa, na retaguarda do progresso individual masculino, a garantir-lhes a continuidade da prole.
A ideia agregadora não deixa de ser irónica: o discurso sobre força masculina parte de homens frágeis. São-no na relação com a rejeição, com a frustração, com a autonomia das mulheres – com a independência alheia, portanto. A insegurança quer alimentar-se do controlo para não colapsar e o discurso passa pelo domínio porque a coexistência sabe a perigo.
Assim, o que poderia parecer inócuo – gente pouco sóbria a dizer coisas pouco sóbrias na internet – grassa na voragem da internet, compondo um ecossistema ideológico com impacto concreto, agregando o ressentimento, a ignorância e a iliteracia financeira, onde o alvo, em geral jovem, não tem ferramentas críticas suficientes para poder distinguir influência de manipulação. A anulação das mulheres tem, neste cenário, de ser um caminho: se são vistas como secundárias e inferiores, não podem ter espaço para poderem ser melhores em nada. Neste cenário, até a igualdade salarial é uma ameaça, uma vez que tira as mulheres de um lugar de dependência.
Tudo isto está na mesma sopa: conservadorismo, promiscuidade sexual, ficcionalização de estilo de vida, exploração sexual e laboral das mulheres, abuso psicológico. E tudo isto, por muitas vezes ser tão polémico, contestado, ridicularizado, revoltante, alimenta o algoritmo. É o que basta para que o alimento dê pãozinho de volta – ei-lo por isso a alimentar Tates e Sullivans e Numeiros, que se apresentam como modelos e não têm uma única ideia à prova de bala.
