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Fabian versus Mariana

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30.04.2026

Fabian Figueiredo fez o discurso mais acutilante da sessão solene do 25 de Abril na Assembleia da República. Durante a tarde, a Avenida da Liberdade, em Lisboa, fervilhava de gente e tropeções. “É por serem os 50 anos da Constituição”, disse-me uma amiga. Discordei: é porque a data, que nos parece uma conquista para sempre, volta e meia se vê em risco, com o saudosismo a Salazar sentado em São Bento ou em estúdios de televisão.

Fabian Figueiredo não se pôs com palavras mansinhas, bonitas, a armar ao poético. A intervenção que fez foi pura e política, provando que a esquerda orgânica se regenera e refulge nos momentos em que sabe usar-se da retórica. Frases que querem dizer coisas, eis o caminho que não admite desvios. Fabian afirmou o período pós-ditadura como a época áurea da história portuguesa. “Os factos são insuportavelmente teimosos”, prosseguiu, e os factos são estes, e aqui prossigo eu: as eleições passaram a ser livres, deixou de haver censura prévia, o analfabetismo transformou-se em escola pública, o SNS foi criado, os direitos laborais também, as mulheres passaram a ser encaradas como pessoas, os dissidentes do governo perderam o medo do chicote, a laicidade do Estado foi reafirmada. A desvalorização de tudo isto por parte da extrema-direita mostra um certo fanatismo quase religioso, além de uma vontade de recuperar o que, durante décadas, nos pareceu findo – e lembrado só para não ser repetido.

“A ideia da ordem e do respeito é uma falsificação grosseira”, disse Fabian, o que contrasta com a ideia comummente espraiada por Ventura e afins, de que Portugal é uma bandalheira e antigamente é que era bom. O antigamente que Ventura defende é isto posto ao sol: cargas policiais em manifestações de estudantes, pais e mães que fugiam do país a salto, curvados dentro das malas de um carro, Aljube e Peniche como morada de gente com a carne à mostra, gente que não dizia amém a Salazar. Antigamente tínhamos Aurora Rodrigues 20 dias sem dormir. O nome não ressoa como o de Álvaro Cunhal, o que só prova a imensidão da crueldade do regime salazarista: gente comum às mãos da PIDE, mais de 480 horas de tortura. Foi barbaramente torturada pelo crime de ter opiniões, e a sua excruciante tortura está........

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