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As flechas

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20.01.2026

Hoje é dia de São Sebastião. Não escolhi a data; ela me escolheu, como escolhem certas doenças raras e alguns amores improváveis. Desde então, carrego a suspeita íntima de que envelhecer é uma forma educada de ser atravessado por flechas invisíveis, sem direito a anestesia. A diferença é que, ao contrário do santo, sobrevivi a todas até aqui, ainda que com pequenos sangramentos de vaidade e umas cicatrizes mal disfarçadas de experiência.

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São Sebastião sempre me pareceu um mártir excessivamente jovem para tanto furo. Um corpo bonito, alvo fácil, exposto à pedagogia cruel das flechas. Talvez por isso eu tenha escrito, anos atrás, sobre as flechas dele como quem escreve sobre as próprias: as que acertam o tempo, as que erram o endereço, as que vêm por engano e as que chegam com ar de sentença, mas sem assinatura. Hoje, reconheço: as flechas não param de vir; apenas mudam de pena e de arqueiro, sujeito invisível, que raramente erra o tendão de Aquiles.

Quando jovem, temi as flechas do fracasso. Depois, as do sucesso, que ferem mais fundo porque exigem manutenção. Vieram as flechas da pressa, que me fizeram médico antes de me fazerem gente; as flechas do silêncio, que me ensinaram a escutar mais do que falar (coisa própria de mineiro); e as flechas da palavra, que doem porque ficam. A crônica, aprendi tarde, é........

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