Opinião | O pau está quebrando no México. Essa é a história
México teme mais violência após exército matar líder do poderoso cartel de Jalisco
Nemesio Rubén Oseguera Cervantes, conhecido como ‘El Mencho’ foi morto no domingo, 22;. Crédito: Jay Baer via Storyful/SNTV/AP
No último domingo, soldados mexicanos mataram um sujeito chamado Nemesio Oseguera Cervantes, mais conhecido como El Mencho, numa cabana nos arredores de Tapalpa, cidadezinha turística no interior de Jalisco.
El Mencho era o fundador e líder do Cartel Jalisco Nueva Generación, organização criminosa que a DEA já descreveu como a mais poderosa do México.
Todas as fotografias conhecidas dele tinham décadas – tamanho o nível de clandestinidade em que ele atuava. Havia uma recompensa de 15 milhões de dólares sobre a sua cabeça.
A intenção dos militares era capturar El Mencho vivo. Mas ele foi ferido no tiroteio e acabou morrendo.
Em poucas horas, pistoleiros do Jalisco Nueva Generación incendiaram veículos, bloquearam rodovias e atacaram forças de segurança em mais de 20 estados do México. Guadalajara, capital de Jalisco, virou uma cidade-fantasma. Vídeos mostram turistas correndo em pânico pelo aeroporto de Puerto Vallarta. A embaixada dos Estados Unidos mandou os cidadãos americanos ficarem trancados onde estivessem. A embaixada chinesa fez o mesmo.
Um balanço oficial contabilizou mais de 250 bloqueios em 20 estados. Pelo menos 70 pessoas morreram desde então, incluindo 25 membros da Guarda Nacional. Um líder do cartel chegou a oferecer mais de mil dólares por soldado morto.
O Cartel Jalisco Nueva Generación nasceu por volta de 2009 como uma dissidência do Cartel de Sinaloa. Sob o comando de El Mencho – ex-policial e ex-agricultor de abacate de Michoacán –, o grupo se transformou numa máquina de guerra com presença em pelo menos 21 dos 32 estados mexicanos e operações em mais de 40 países.
A receita do grupo não vem só do comércio de drogas. O cartel toca um portfólio criminoso bastante diversificado: não apenas tráfico de fentanil, cocaína e metanfetamina, mas extorsão sobre fazendeiros e comerciantes, roubo de combustível, contrabando de migrantes, mineração ilegal, fraudes imobiliárias e tráfico de armas. O grupo hoje tem uma grande influência no Porto de Manzanillo, em Colima – o principal ponto de entrada de precursores químicos vindos da Ásia para a fabricação de fentanil na América do Norte.
A marca registrada do Jalisco Nueva Generación é a violência extrema: execuções públicas filmadas para as redes sociais, corpos pendurados em pontes, ataques com drones explosivos, minas terrestres, e até um foguete que derrubou um helicóptero militar em 2015.
A estrutura do grupo funciona num modelo de franquias: o líder central dita a estratégia e resolve as disputas, mas as praças regionais operam com um certo grau de autonomia.
É verdade que a morte do líder do grupo não explica o México. Mas ajuda a expor como essa engrenagem funciona:
1. No México, impera uma impunidade quase absoluta.
Segundo a ENVIPE, do INEGI – o IBGE mexicano –, em 2024, houve 33,5 milhões de delitos no país. Desses, menos de 10% foram denunciados ao Ministério Público. E, mesmo entre os casos denunciados, só em pouco mais de 2/3 dos casos houve abertura de inquérito. Na prática, isso significa que 93,2% dos crimes no México ficaram fora de qualquer investigação formal – a chamada cifra negra.
Com os homicídios, a história é parecida. Entre 2010 e 2022, as procuradorias estaduais abriram 300 mil investigações por homicídio doloso no México. Mas em mais de 8 de cada 10 homicídios investigados, o Estado abriu o arquivo e não chegou a um nome que pudesse levar para o tribunal.
Quando as autoridades não investigam, não punem e não protegem, o vácuo é preenchido por quem tem armas e disposição.
2. Os cartéis mexicanos são empresas multinacionais bilionárias.
O crime organizado mexicano não é uma gangue de rua vendendo papelotes de cocaína, liderada por pé-rapados. É uma indústria multinacional.
Só o Jalisco Nueva Generación fatura bilhões por ano. A DEA considera que o grupo e o Cartel de Sinaloa, juntos, são responsáveis pela maior parte do fentanil, da cocaína e da metanfetamina que entram nos Estados Unidos – o maior mercado consumidor dessas drogas no mundo
E o dinheiro da droga convive com o da extorsão. Quando o governo mexicano criou uma política nacional antiextorsão no ano passado, registrou, em pouco mais de 6 meses, mais de 142 mil chamadas de denúncia de extorsão numa única linha telefônica.
A extorsão, no México, funciona em escala industrial.
3. Se os mexicanos exportam drogas, os americanos exportam armas.
Dos homicídios registrados pelas autoridades em 2024, quase 72% foram cometidos com arma de fogo. Mas há uma informação relevante sobre essa história: segundo o secretário de Defesa do México, 78% das armas recuperadas pelas operações policiais no México são dos Estados Unidos.
No fim, um mercado não vive sem o outro.
4. Nada é tão ruim que não possa piorar.
Desde que o presidente Felipe Calderón lançou uma ofensiva militar contra os cartéis, há vinte anos, o México vive o paradoxo da “estratégia de decapitação”: prender ou matar líderes pode ser um golpe simbólico importante, mas historicamente costuma desencadear disputas de sucessão que aumentam a violência.
A captura de El Chapo, em 2014, e a extradição dele em 2017, não destruíram o Cartel de Sinaloa – geraram uma guerra interna entre facções que dura até hoje.
A prisão de “El Mayo” Zambada, cofundador do Sinaloa, nos Estados Unidos, em julho de 2024, piorou esse cenário.
A morte de El Mencho, nos últimos dias, tende a repetir o padrão: se um Jalisco Nueva Generación intacto é perigoso, um Jalisco Nueva Generación fragmentado pode ser pior.
5. Os vizinhos ricos do norte também estão envolvidos nessa história.
No início de 2025, o governo Trump assinou uma ordem executiva para designar cartéis mexicanos como organizações terroristas estrangeiras. E isso mudou o jogo de duas maneiras.
Em primeiro lugar, no plano legal, qualquer pessoa ou empresa que forneça apoio material aos cartéis mexicanos pode ser processada nos Estados Unidos – o que inclui potencialmente bancos, empresas de logística e até comunidades sob controle territorial dos cartéis.
Mas, além disso, no plano operacional, a medida abriu caminho para um maior compartilhamento de inteligência, sanções e uma força-tarefa militar conjunta, que forneceu a inteligência usada na operação de Tapalpa, nos últimos dias.
Para o México, a aproximação com os ianques é um triunfo e uma armadilha.
O que acontecerá daqui para frente?
A história pode ajudar a revelar essa resposta. O México já passou por isso antes, e o roteiro costuma se repetir.
Nos próximos dias, a tendência é que a retaliação perca intensidade. Bloqueios e incêndios são caros, chamam atenção e são um convite a uma resposta militar. Os próprios membros regionais do cartel têm incentivo para recuar – negócio parado não dá lucro, e guerra aberta contra o Exército é uma conta que ninguém quer pagar por muito tempo.
Mas o problema de verdade começa quando essa poeira baixar.
O Jalisco Nueva Generación não tem um herdeiro natural. El Mencho concentrava as decisões, resolvia as disputas entre as franquias e dava coerência a uma organização espalhada por 21 estados. Sem ele, cada líder regional passa a ser, ao mesmo tempo, candidato a chefe e alvo dos vizinhos. Foi o que aconteceu com o Cartel de Sinaloa depois da captura de El Chapo: a organização não acabou, mas se partiu – e as partes passaram a brigar entre si, com a população civil no meio.
México: qual o futuro do Cartel Jalisco Nova Geração sem El Mencho?
México: qual o futuro do Cartel Jalisco Nova Geração sem El Mencho?
O que está acontecendo no México? Veja os impactos da morte de El Mencho e a violência no país
O que está acontecendo no México? Veja os impactos da morte de El Mencho e a violência no país
Quem é El Mencho, narcotraficante mais procurado do México que foi morto em operação
Quem é El Mencho, narcotraficante mais procurado do México que foi morto em operação
Há também os rivais de fora. O Sinaloa, mesmo enfraquecido pela guerra interna, pode tentar avançar sobre rotas e praças que o Jalisco controla. Grupos menores, como a Nueva Familia Michoacana, podem disputar território em áreas de fronteira.
E ainda há a Copa do Mundo. Guadalajara recebe partidas do torneio a partir de junho, com a expectativa de receber 3 milhões de visitantes. O governo mexicano vai precisar demonstrar, nos próximos meses, que consegue garantir segurança numa cidade que, há poucos dias, estava em lockdown. É uma pressão política enorme – e os cartéis sabem disso.
Até a semana passada, o governo mexicano apresentava uma queda de 42% na média diária de homicídios desde setembro de 2024. Os números eram reais. A tendência era de melhora.
Mas o que fevereiro vem mostrando é que, no México, a violência não funciona como uma torneira que vai fechando aos poucos, por uma ação bem orquestrada pelas autoridades. Nesses casos, funciona mais como uma represa. A água acumula por trás – os cartéis, as armas, a impunidade, o dinheiro – e, quando a parede racha, o estrago é proporcional a tudo que estava represado.
Essa parede rachou no último domingo.
