Opinião | Bad Bunny se transformou na esperança contra o plano trumpista de tornar o inglês homogênico nos EUA
A histórica apresentação de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl — a primeira realizada inteiramente em espanhol — pode não ter sido uma obra-prima musical, mas certamente ficará marcada como a resposta mais contundente até o momento à cruzada do presidente Trump para que o inglês seja o idioma oficial dos Estados Unidos e à pressão de seus apoiadores por leis que obriguem o uso do inglês como língua oficial.
A celebração da cultura hispânica feita pelo cantor porto-riquenho de 31 anos dificilmente poderia ter chegado em um momento mais hostil para os latinos. Alguns especialistas preveem — erroneamente, como demonstrarei — que o número de falantes de espanhol nos EUA começará a diminuir em breve. Além das deportações em massa de Trump e da retórica sobre imigrantes que “envenenam o sangue do nosso país”, diversos estados republicanos estão aprovando leis que obrigam o uso do inglês como língua oficial, com o objetivo de desencorajar o espanhol na vida pública.
A partir deste mês, a Flórida exigirá que os testes para obtenção da carteira de motorista sejam feitos exclusivamente em inglês. Críticos argumentam que isso não apenas afasta trabalhadores essenciais da construção civil e da hotelaria, mas também sinaliza sinal verde para a discriminação racial. No ano passado, Trump assinou uma ordem executiva designando o inglês como idioma oficial do governo dos EUA para, entre outras coisas, “criar uma sociedade mais coesa e eficiente”. A ordem de Trump revogou uma diretriz de 2000 que exigia que agências e programas federais garantissem o acesso a pessoas com fluência limitada em inglês.
Apesar desse ambiente hostil, Bad Bunny, cujo nome verdadeiro é Benito Antonio Martínez Ocasio, tornou-se um fenômeno cultural sem precedentes. Sua apresentação no Super Bowl atraiu 128 milhões de espectadores. Em comparação, a transmissão simultânea do show de Kid Rock, apoiado por Trump, gerou apenas seis milhões de espectadores.
O cantor porto-riquenho foi o artista mais ouvido no Spotify em quatro dos últimos seis anos. Ele é o primeiro latino a ganhar um Grammy de “Álbum do Ano” por um trabalho totalmente em espanhol e o primeiro a apresentar um show inteiro no Super Bowl em espanhol.
Ele também é muito politizado, mesmo que nem sempre de forma explícita. Durante sua recente cerimônia de recebimento do Grammy, ele disse: “ICE fora”. Ele também colocou um outdoor no Super Bowl com a frase: “A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor”, uma referência nada sutil às declarações de Trump demonizando imigrantes indocumentados.
Os céticos, no entanto, dizem que Bad Bunny está travando uma batalha perdida. A revista britânica The Economist previu esta semana que, apesar do estrelato do cantor, “o número de falantes de espanhol nos Estados Unidos provavelmente atingirá um platô e, eventualmente, se inverterá”.
A revista citou dois motivos principais: a cruzada massiva de deportação de Trump e o fato de que os filhos de latinos tendem a falar menos espanhol do que seus pais. “A apresentação de Bad Bunny no Super Bowl pode significar não a ascensão do espanhol nos Estados Unidos, mas sim seu auge”, afirmou a revista.
Eu não acredito nisso. Já vimos esse filme antes. No início da década de 1980, um movimento semelhante, o “inglês como única língua oficial”, varreu o país. Assim como hoje, levou à aprovação de leis estaduais que impunham o inglês como única língua oficial na Flórida e em outros estados. Mesmo assim, não durou muito. A imigração aumentou, as leis que impunham o inglês como língua oficial foram revogadas e a população hispânica dos EUA chegou a 43 milhões, tornando os Estados Unidos uma das maiores nações hispânicas do mundo.
Algo semelhante provavelmente acontecerá no futuro. Os Estados Unidos precisarão de mais — e não menos — imigrantes nos próximos anos para compensar a queda nas taxas de natalidade. De acordo com um novo relatório do Escritório de Orçamento do Congresso (CBO), um órgão bipartidário, “Sem imigração, a população começaria a diminuir em 2030”.
Isso significa que, sem mais imigrantes, não haverá americanos em idade ativa suficientes para pagar impostos que financiem a Previdência Social e outros serviços governamentais essenciais, e acabaremos com uma economia estagnada, senão em declínio.
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Talvez o sucesso de Bad Bunny possa até dar um impulso extra ao espanhol nos Estados Unidos. Vanessa Díaz, professora da Universidade Loyola Marymount e coautora de um livro sobre Bad Bunny, me contou que um curso que ela ministra sobre o cantor e a história de Porto Rico está com as vagas esgotadas e uma longa lista de espera. O Duolingo, plataforma de ensino de idiomas, registrou um aumento de 35% nos cliques em cursos de espanhol nos Estados Unidos desde a apresentação de Bad Bunny no Super Bowl. Minha aposta?
Depois que o mandato de Trump terminar, se não antes, a Flórida e outros estados darão adeus às leis que exigem o inglês como única língua oficial por pura necessidade econômica. A apresentação de Bad Bunny no Super Bowl será lembrada como uma noite em que milhões de americanos ouviram uma estrela latina dizer “Deus abençoe a América” e clamar por amor em vez de ódio, transmitindo ao mesmo tempo a mensagem de que a diversidade cultural enriquece a todos nós.
