Notícia | Daniel Filho: ‘Enquanto houver set, ele trabalha’
Aos 88 anos, Daniel Filho continua em cena – literalmente. Está no elenco de (Des)controle, drama dirigido por Rosane Svartman e Carol Minêm, protagonizado por Carolina Dieckmmann, em cartaz nos cinemas brasileiros.
No filme, ele interpreta o pai da escritora Kátia Klein, personagem que enfrenta a recaída no alcoolismo após 15 anos de sobriedade. Para Daniel, o presente não é memória. É atividade.
Talvez por isso, quando se pergunta como é seguir trabalhando nessa maturidade, a resposta venha sem reflexão elaborada, quase automática:
“Eu não sei fazer outra coisa, o filmar ou estar no set é praticamente como respirar para mim. O difícil para mim é parar de trabalhar. Eu sinto muito a ausência do set. Então, trabalhar para mim é sempre muito agradável”, conta em entrevista à Coluna.
Ele afirma que evita aparecer em filmagens para não interferir no trabalho dos outros, mas admite que, se dependesse apenas da vontade, pisaria num set todos os dias. A rotina de gravação ainda o move.
Essa relação visceral com o trabalho ajuda a entender como ele enxerga as diferenças entre televisão e cinema –não como uma disputa, mas como ritmos distintos.
“Na TV, se você faz uma novela, grava muita coisa por dia. É um trabalho que exige outro tipo de ligação”.
Lembra que uma novela costuma durar seis ou sete meses, tempo suficiente para criar convivência e incerteza.
“Você não sabe exatamente o que vai acontecer. O personagem tem muitas possibilidades, e você também é surpreendido. Quando a novela é boa, as novidades vêm semanalmente”.
No cinema, diz, o desenho é mais fechado.
“No filme, você tem princípio, meio e fim, o que dá uma consistência maior ao trabalho”. O tempo de produção – de quatro a oito semanas – concentra a energia e delimita o percurso. “Há uma consistência maior no trabalho cinematográfico do que no televisivo. Mas o cinema também é visto com mais atenção, com mais profundidade”.
Ele próprio resume a diferença: “A novela é como um jornal que você lê todo dia. Se fosse transformar os artigos em livro, você revisaria”.
Se a linguagem muda, o prazer permanece. Ao falar das funções que exerceu ao longo da carreira – ator, diretor, produtor – não estabelece hierarquias. “Eu me divirto de todas as formas, fazendo cinema ou televisão”.
Ainda assim, deixa escapar uma preferência: “Entre tudo, o mais agradável é ser ator”. E arremata, com ironia: “Se soubessem o quanto eu gosto de fazer, não me pagavam”.
Quando o olhar se projeta adiante, o horizonte se ajusta às medidas do presente.
“Com 88 anos, eu só quero acordar amanhã”, diz, sem rodeios.
A mesma franqueza surge ao falar da televisão atual.
Começa com cautela: “Não sou crítico, não tenho como avaliar, porque assisto muito pouco”. Ainda assim, não se furta a opinar: “O que vejo me entristece. Acho que já tivemos uma televisão melhor”.
Para ele, o setor atravessa um período de desorientação. “A televisão, principalmente a brasileira, perdeu um pouco o rumo”. A pandemia, a chegada do streaming e a velocidade das transformações deslocaram o eixo da produção. “Sinto que estamos perdendo a brasilidade”.
Ao mesmo tempo, reconhece a força criativa recente do cinema nacional. “O que tem de filme brasileiro bom esse ano, não é só O Agente Secreto, mas o Manas, o documentário da Petra Costa, Apocalipse nos Trópicos, e o Último Azul. São filmes brasileiros muito fortes”.
O impasse, em sua visão, está na lógica de comando. “Temos um streaming mandando na produção brasileira. E o mando do streaming, pelo que sinto, é feito de fora do Brasil”.
Se no presente ele segue em atividade, o passado raramente o convoca. A reprise de Rainha da Sucata, na TV Globo, não o leva de volta à frente da televisão.
“Eu não vejo. Tenho um certo problema em olhar para a minha cara. Não consigo me olhar sem ver defeito. Ao longo da vida, não preciso me ver mais.” Não é desinteresse pela obra – “Acho ótimo ter feito”–, mas uma forma de rigor consigo mesmo.
As lembranças da novela surgem menos pela trama e mais pelo ambiente. “Eu era muito bandido. Ele (o vilão Renato Maia) mata uma porção de gente”, diverte-se.
Recorda as reações do público nas ruas e fala com afeto da parceira de cena: “A Renata Sorrah (que interpreta Mariana na trama de Silvio de Abreu) é uma pessoa maravilhosa. Quem trabalha com ela tem prazer, porque, além de grande atriz, é muito engraçada.”
O que permanece vívido é o bastidor – a convivência, o clima, os encontros. Até a memória fotográfica aparece como parte desse ofício.
“Eu pegava o papel na hora e lia. E, ao ler, eu decoro. Vou falando e sei em que parte da página estou.” Um mecanismo preciso, mas passageiro: “Se você disser para fazer de novo, tenho que pegar o papel e ler outra vez.”
