Lei do Faroeste no Desporto
O mundo atual está cada vez mais entregue aos poderosos, cujas regras se aproximam perigosamente das velhas leis do faroeste: quem tem mais força impõe-se, e os “índios” que se lixem – ontem, como hoje.
A FIFA continua a organizar grandes competições em países que podem pagar, independentemente das críticas ou das violações de direitos associadas. Foi assim no Mundial da Argentina, em 1978, disputado em plena ditadura militar. Voltou a acontecer no Qatar, em 2022. E acontecerá novamente este ano, com os EUA como principal anfitrião.
Outro exemplo é o crescente investimento de Estados em clubes europeus, numa clara tentativa de melhorar a sua imagem internacional. O Paris Saint-Germain pertence a um fundo ligado ao Qatar; o Manchester City é controlado por investidores de Abu Dhabi; o Newcastle United foi adquirido por um fundo soberano da Arábia Saudita. Milhões de adeptos celebram as vitórias que esse dinheiro torna possíveis - esquecendo, muitas vezes, aquilo que o mesmo dinheiro também permite.
A tentativa - entretanto frustrada - de criação de uma Superliga Europeia foi outro exemplo desta lógica. O objetivo era simples: garantir receitas permanentes aos clubes mais ricos, reduzindo drasticamente o peso do mérito desportivo. Se tivesse avançado, dificilmente teríamos histórias improváveis como a do Bodø/Glimt, um clube de um pequeno país que continua a surpreender.
Também na política internacional o desporto raramente escapa às contradições do mundo real. Após a invasão da Ucrânia pela Rússia, clubes e seleções russas foram suspensos das competições internacionais pela UEFA e pela FIFA. Mais recentemente, depois dos ataques militares contra o Irão conduzidos pelos Estados Unidos e por Israel, o Irão admitiu a possibilidade de não participar no próximo Mundial, uma vez que a competição será organizada por um dos países envolvidos no conflito.
Manter a organização de um Mundial num país envolvido em ações militares - enquanto um dos países atingidos pondera ficar de fora - não transmite uma mensagem contraditória? Traz-me à memória a proibição imposta a um atleta ucraniano - nos recentes JO de Inverno - de homenagear compatriotas mortos na guerra exibindo fotografias no capacete, sob o argumento de que os Jogos devem permanecer “politicamente neutros”.
Por cá, a realidade não é muito diferente. Apesar de concentrarem as maiores audiências e receitas, os principais clubes portugueses continuam a defender um modelo de distribuição das receitas televisivas profundamente desigual, recusando aprender com ligas mais equilibradas - como a Premier League - onde a repartição é muito mais equitativa.
O desporto nasceu para promover respeito, honrar o mérito e celebrar a superação. Porém, demasiadas vezes limita-se a espelhar os vícios do mundo que o rodeia. E quando isso acontece, aquilo que deveria unir povos e inspirar gerações transforma-se apenas em mais um palco onde impera a velha lei do faroeste - ontem como hoje - em que quem manda o faz à custa do poder das armas, do dinheiro… e, demasiadas vezes, das vidas dos outros.
