Amigos e atitudes
Creio que no mundo inteiro existem milhões de pessoas que permanentemente passeiam nas ruas, praças e avenidas, de cabeça caída e indiferentes aos que com eles se cruzam. Porque será que isso acontece?
Se olham alguém, fazem-no sem que sejam notadas e, tantas, causam a impressão de viver/passar com medo. Mas milhares de pessoas com este comportamento, normalmente vêem tudo e sabem de tudo. São pouco comunicativas e por vezes apresentam ares de admiração quando alguém lhes conta coisas que já bem conhecem.
São pessoas que por viverem assim e terem tais atitudes, normalmente estão sempre cheias de compaixão de si próprias.
Muito bem disfarçado, mostram sintomas de infelicidade para serem bajuladas ou possuírem apoios que não conseguem conquistar por mérito ou por trabalho próprio.
Se têm conhecimento de alguém que precisa de ajuda, duma palavra amiga, positiva ou de um pouco da sua amizade, escapam-se e desaparecem de cena.
Há bastantes anos ouvi contar que numa certa Vila, aos sábados, um grupo de 5/6 amigos se encontravam “para pôr a conversa em dia e se fazer um jogo de dominó”.
Eram certinhos no encontro, juntos do banco do mesmo jardim e eram admirados pelos “passantes”, devido ao seu entusiasmo e pública amizade.
Mas certo Sábado um elemento do grupo não apareceu e os outros interrogaram-se. E esperaram pelo sábado seguinte e ainda mais um terceiro sábado. O amigo deixou de poder vir?
Então um elemento do grupo, resolve ir a casa do Joaquim – que era perto – para saber se o amigo precisava de qualquer ajuda. Bateu-lhe à porta e o Joaquim convidou o João a entrar: “entra, bom amigo. Senta-te frente à lareira, porque vamos tomar um chazinho e morder umas bolachas”.
Chegou o lanche, saborearam-no e as canhotas da lareira ardiam em bom ritmo, sem que o visitado e o visitador dissessem algo um ao outro. Olhavam o fogo da lareira.
Por fim, o João (visitador), retira uma canhota; coloca-a no chão de mármore frente à lareira e a canhota lentamente perde a chama e acaba mesmo por se apagar. A lareira, sem aquela canhota, perdeu chama e o Joaquim (visitado) sem dizer absolutamente nada, ia percebendo a mensagem: percebia a sua falta no resto do grupo.
O João (visitador), vendo que o Joaquim nada queria dizer-lhe, terminou a visita e despediu-se.
-Bom amigo, João – disse o Joaquim. “Obrigado pela visita, pela bela lição que me dispensaste e sobretudo pelo respeito que tiveste para com o meu silêncio, devido às faltas semanais no jardim da Vila. Bem hajas, João!”
Pelo belo conto que se conta, não é difícil acreditar nas assíduas afirmações feitas por muitos, sobretudo os optimistas, de que vale mais ter amigos que dinheiro na algibeira. Por mim, sou defensor acérrimo de ter amigos, tenho-os e dou-lhes grande valor. Mas fico muitíssimo mais tranquilo, se tiver os dois.
Os amigos, como o dinheiro, são altamente necessários. Só que o dinheiro no bolso, a menos que nos seja roubado, não falha e é bom, desde que o tenhamos ganho. E com os amigos, pode haver falhas. E há falhas com certeza!
Recordo outra frase do povo: “depois do baptizado feito, não faltam padrinhos!” Ora isto é uma queixa. Isto é, os amigos, certos amigos – segundo a frase – só aparecem quando não são precisos.
Bem sabemos pela experiência, que amigo a sério, é aquele “que se dá” ao outro sem pedir nada em troca. Mas sabemos também, que hoje, e devido a tanto egoísmo existente e ao oportunismo desenfreado, quem é que se pode “dar” ao outro, sem que este caia na deselegância da preguiça, do egoísmo e do oportunismo?
Eis porque, mais uma vez o povo se defende ao interiorizar: “amigo não empata amigo”.
Os amigos, porque assim se sentem, não se “empatam” entre si. Melhor: não se prejudicam nem se estorvam entre si. Na verdade, assim não acontece. Pois é precisamente entre muitos amigos que se conhecem deslealdades, traições e tantos outros problemas sociais.
Para mim, português que sou e nascido no século XX, quase tenho a certeza de que entre aqueles que não são amigos, é que existe mais seriedade e mais honra no assumir de compromissos.
Pouco ou nada se conhecem, pouco convivem e muito poucas vezes recorrem uns aos outros sem que exista um mínimo de segurança, a nula possibilidade de deslealdade, traição ou outros males sociais.
Não querendo ser bota-de-elástico ou pessimista até, penso que o perigo das amizades acontece, quando são mal-entendidas. E se entre as pessoas que se conhecem, a amizade é debilitante, quer seja por estorvo, empate, oportunismo, dúvida, egoísmo e, sobretudo, por inveja, o diabo que transporte tal amizade.
