O Douro e as suas realidades
O Douro e as suas realidades
No Douro existem realidades que são, ou parecem ser, inevitáveis. Umas parecem sina à qual não se pode fugir; outras, por serem filhas da natureza, são motivo de engrandecimento e proveito. Há ainda aquelas que resultam de procedimentos gerais e de circunstâncias, de proveniência individual ou coletiva.
Mas, indo ao ponto, antes que me perca nas circunstâncias do escrever — que tantas vezes fazem as letras fugir-nos da mão, como se fossem muito donas de si —, convém dizer o essencial.
Existe um rio principal, que nasce em terras de Espanha e segue destino a Portugal, num percurso em que vai sendo engrossado pelos afluentes que rasgam as montanhas para virem até ele. Existem os montes e os vales que lhe proporcionam o clima propício para que seja terra de vinhos exclusivos e ímpares. Existe uma atividade económica e social em redor das vinhas e do vinho. Existem as pessoas. E existe a palavra crise.
Quem se dê ao trabalho e ao gosto de analisar a forma e as causas das coisas alusivas à realidade duriense ao longo dos últimos dois séculos e meio, recuando até à época da demarcação e da regulamentação do setor, rapidamente se apercebe de que, mesmo antes de nascer aquilo que hoje conhecemos, já essa malquerida palavra surgia em praticamente todas as publicações escritas.
Aliás, foi precisamente a situação que essa palavra significa — com todos os seus amargos de boca e aflições — que levou algumas pessoas com interesses diretos no negócio a deslocarem-se a Lisboa para pedir ao senhor marquês, de cabeleira postiça, branca e longa, como era moda naquele tempo, que definisse formas de mando e de comando.
No entanto, ainda não se inventou uma borracha que permita apagar essa palavra maldita. Falta-nos, talvez, as condições que a tornariam imprópria. Mesmo durante as décadas — que foram muitas — em que o vinho do Porto representava, em valor, cerca de metade das exportações nacionais, nunca se dissipou totalmente a sensação de desassossego e de escassez de recursos. Em muitos quotidianos, a fome era mais do que muita, a injustiça campeava e os aproveitamentos de muitos por alguns imperavam.
Contudo, existia um enorme paradoxo. Até há cerca de um quarto de século, o Douro era simultaneamente uma terra de dinheiro fácil e de crises diárias. Bastava herdar ou possuir uma quinta com meia dúzia de hectares — um simples quintal no Alentejo — para garantir uma vida desafogada e com poucas preocupações de sobrevivência económica.
Como era próprio do contexto e do tempo, por circunstâncias que não cabem nesta folha, enquanto isso, quase todos os que nos vinhedos vergavam as costas para, com os ferros de monte, escreverem a poesia que brotava em vinho, vendiam a sua força por pouco dinheiro e forravam a barriga com côdeas de pão, coiratos, meia sardinha e tigelas de caldo de couve.
Felizmente, essa é uma das realidades que existiram, mas que deixaram de existir. Tornaram-se impróprias e indignas dos tempos que vieram depois. Desde que o mundo é mundo sabe-se — e deseja-se — que a vida tem mais sentido quando às pessoas é permitida a dinâmica que possibilita a concretização dos sonhos que impulsionam o desenvolvimento e a qualidade de vida.
Voltando às tais realidades: existe, desde o início, outra que se prende com o negócio em si e com a forma como ele decorre. Alguns milhares produzem uvas e vinho, que obrigatoriamente eram — e em larga medida continuam a ser — entregues a uma dezena de agentes que os escoam e comercializam. De um lado temos, pois, a lavoura; do outro, o comércio.
A este respeito está escrito nos livros que, desde o tempo do senhor marquês, existe um desequilíbrio de poder e um choque de interesses — algo próprio de qualquer atividade económica. Também está escrito que, quando a balança se desequilibra, é necessário que existam regras que evitem abusos e práticas contraproducentes entre os parceiros.
Já no século XVIII, Adam Smith, nos seus ensinamentos sobre o liberalismo, escreveu que na economia existe uma “mão invisível”. Segundo o ilustre pensador, quando o mercado funciona, os proveitos que começam por beneficiar alguns acabam por produzir efeitos benéficos para todos.
Desde então, há quem concorde e há quem discorde. As teorias servem precisamente para isso: é da discussão que nasce a luz. No que toca ao Douro, facilmente se conclui que a prática contradiz a teoria, sobretudo pela inexistência das premissas necessárias para que o mercado livre funcione plenamente — desde logo pela falta de equidade entre os agentes económicos.
Falta-nos equilíbrio de forças, tanto no ser como no ter. Por isso, a História mostra que, com regras eficientes e firmes e com regulamentação adequada, as coisas tendem a correr melhor. Ainda assim, a crise permanece. Não desaparece e, por vezes, agrava-se — em grande parte porque não sabemos governar-nos nem deixar que nos governem. Adormecemos e ainda não despertámos.
Outra realidade, mais recente, resulta do facto de o Douro já não ser apenas vinho do Porto há cerca de trinta anos. Os chamados vinhos tranquilos ganharam qualidade e pujança. Afirmaram-se e tornaram-se um negócio com tão ou maior potencial futuro do que o vinho fino.
Obviamente, por não ser um produto exclusivo na produção e na comercialização, será desaconselhável aplicar-lhe a mesma regulamentação e ação que se aplica àquele que nos adoça a boca com a sua complexidade.
Mas agora não vamos por aí.
É vinho de outra pipa.
