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Assim, não! Bragança merece mais e melhor.

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25.02.2026

Assim, não! Bragança merece mais e melhor.

O estado de graça terminou. A contestação cresce e já não pode ser ignorada. Desde a tomada de posse do novo executivo municipal ou, mais concretamente, desde a ação direta da presidente, as polémicas sucedem-se a um ritmo que preocupa quem acompanha a vida pública do concelho.

Os protagonistas não são vários. Não é a oposição, não é o vereador independente, nem sequer os vereadores da maioria que, por omissão, permanecem em silêncio. O centro da turbulência política tem sido, sobretudo, a própria presidente.

Ainda antes de assumir funções já se multiplicavam declarações públicas sobre matérias que exigiam prudência e conhecimento profundo da realidade autárquica. Vieram depois decisões contestadas: a atualização da fatura da água, reorganizações internas difíceis de compreender à luz das boas práticas de gestão. Nomeações envoltas em dúvidas, depois de críticas públicas à alegada inoperância dos serviços, acabaram por resultar na recondução e promoção dos mesmos técnicos visados. A sucessão de episódios alimenta um clima de instabilidade que não favorece nem o executivo, nem a cidade.

A comunicação política tornou-se também um tema central. A presença constante nas redes sociais, com vídeos institucionais para anunciar decisões de rotina, criou a perceção de uma governação mais focada na exposição do que na execução. O caso mais recente, envolvendo a apresentação pública de viaturas de recolha de resíduos no centro da cidade, foi para muitos o símbolo de uma estratégia que privilegia a imagem em detrimento da substância.

Entretanto, acumulam-se episódios que adensam a polémica: mudanças na estrutura orgânica da autarquia, controvérsias em torno do chefe de gabinete e nomeações, bem como decisões administrativas que têm levantado dúvidas jurídicas e críticas públicas.

A narrativa da vitimização — incompreensivelmente até em momentos institucionais, como o dia da cidade — começa a jogar contra.

Bragança não precisa de conflitos permanentes nem de comparações estéreis com o passado. Bragança não pode viver presa ao passado. Mas necessita de estabilidade, liderança e visão estratégica. E liderança também é saber reconhecer erros, corrigir trajetórias e ajustar prioridades. Assumir falhas não é fraqueza — é inteligência. Persistir no faz de conta, insistindo que o tempo ainda é curto para avaliar resultados, torna-se difícil quando esse mesmo tempo parece suficiente para acumular decisões polémicas e ruído institucional.

A presidente tem ainda margem para mudar o rumo. Pode recentrar a ação política na gestão concreta do concelho, reduzir o protagonismo mediático e reconstruir pontes com a própria equipa, com os funcionários municipais, com a comunidade e por que não com o partido que contribuiu para a eleger. Governar não é apenas marcar presença é construir confiança, garantir estabilidade e apresentar resultados.

Caso contrário, talvez seja necessário um gesto de frontalidade política: reconhecer que a função exige mais do que visibilidade e assumir que o projeto pode não estar preparado para responder às exigências do cargo. É preferível fazê-lo agora do que prolongar uma situação que, dia após dia, fragiliza a própria presidente e a imagem da autarquia.

Escrevo estas linhas com sentido crítico, mas também com honestidade intelectual. A análise aos primeiros cem dias foi, admito, demasiado simpática, talvez influenciada pela minha própria proximidade política. Hoje, porém, os acontecimentos falam por si. A sucessão de crises internas e até demissões no contexto laboral e partidário mostram que o problema ultrapassa divergências normais e entrou numa fase de desgaste profundo.

Bragança merece mais do que exposição permanente. Merece liderança, estabilidade e uma visão clara para o futuro. Exige-se foco na governação do município.


© Diário de Trás-os-Montes