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Houve "uma grave crise migratória", sim, mas Hugo Soares não era nascido

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11.08.2026

O tempo é um grande escultor, escreveu Marguerite Yourcenar; poderia ter dito que é um grande mentiroso. Não porque o tempo minta (até porque o tempo não existe), mas porque permite e valida todas as ficções.

Só assim se percebe que tanta gente tenha perdido a noção do que é uma “grave crise migratória” e esteja capaz de acolher como verdadeira essa qualificação, efetuada pelo líder parlamentar do PSD, para a vaga de imigração que nos últimos 10 anos se verificou em Portugal.

A qualificação, recorde-se, surgiu num vídeo em que Hugo Soares refere o ocorrido em Ceuta – a entrada de mais de 60 mil pessoas, vindas de Marrocos, por mar – como se algo de remotamente semelhante tivesse acontecido em Portugal. Associando o facto a “políticas de imigração”, como se aquela súbita irrupção de gente se tivesse devido a alguma decisão do governo espanhol, o braço-direito de Luís Montenegro passou a elogiar o Executivo do seu partido pela “regulação a sério” que alegadamente teria efetuado, em contraste, acusou, como “o Governo do Partido Socialista, que durante oito anos fechou os olhos a uma grave crise migratória que estava a acontecer em Portugal”. Crise essa que, argumenta, consistiu em “mais de um milhão de pessoas que entraram em Portugal sem regra”.

Esta comparação entre uma mole de gente que entra a correr por uma fronteira adentro, sem ser abordada por qualquer autoridade ou mostrar documentos, e fica a dormir na rua e a pedir água e comida, e a migração, ao longo de quase uma década, de pessoas de variadas nacionalidades, com predomínio para a brasileira e dos PALOP, que claramente vieram trabalhar e tinham trabalho à sua espera – tanto que continuamos, mesmo com o tal mais de um milhão em território nacional, com pleno emprego – não é apenas estulta e de profundo mau gosto: é incendiária.

Hugo Soares só pode saber a que........

© Diário de Notícias