A última sessão: As regras de um jogo interrompido
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A última sessão: As regras de um jogo interrompido
Miguel Mesquita Montes
Michael B. Jordan voltou a juntar-se a Ryan Coogler em Sinners, filme que recentemente lhes valeu os Óscares de Melhor Ator Principal e Melhor Argumento Original, respetivamente. Fruitvale Station, além de ter sido a estreia do realizador, foi o primeiro momento de uma colaboração que conta já com cinco obras.
A vida é um jogo (palavras roubadas ao título do clássico de Robert Rossen). E as regras foram ditadas antes de entrarmos. Vamo-las aprendendo, uns mais rapidamente do que outros. Alguns não chegam a conhecê-las na sua plenitude. Mas quando isso acontece porque o jogo acaba cedo demais, qualquer espectador dá conta de que o apito final foi dado antes do tempo, embora a vida seja jogada sem árbitro.
Fruitvale Station é sobre uma vida interrompida. Michael B. Jordan é Oscar Grant, o jovem que foi assassinado pela polícia na estação de metro que dá nome ao filme na noite de réveillon 2008/2009. Oscar é namorado, é pai, é filho, e gosta de fugir às regras da vida. Mas nem por aí o realizador, Ryan Coogler, que assina o argumento, opta por ser moralista. Precisamente por lhe expor os pontos fracos, faz de Oscar um humano como nós.
A edição e os diálogos são pautados por alguns solavancos, naturais para quem está a começar. Porém a história apresentada acaba por nos atingir de forma mais realista do que desejaríamos. Tal se deve sobretudo à prestação de Octavia Spencer, que protagoniza a mãe de Oscar. A atriz conseguiu descer aos confins da alma humana para representar uma mãe que já não sabe o que fazer.
“Este filme não sobreviveria sem a realidade, pois é apoiado na luta contra o racismo”
“Este filme não sobreviveria sem a realidade, pois é apoiado na luta contra o racismo”
Este filme não sobreviveria sem a realidade, pois é apoiado na luta contra o racismo. Há quem alegue que a vida é maior do que a ficção; eu sempre gostei de acreditar no contrário. Quando as duas se fundem, num uníssono difícil de simular, a arte acontece, e as causas ganham outra cor.
Algures no meio do filme, mãe e filho estão a louvar a louça. Sente-se tensão em Oscar, mas a mãe confessa que aquele momento do dia a relaxa. Quando o filho lhe diz que vai sair à noite para celebrar o ano novo, a mãe pergunta-lhe se vai sair à séria. Neste momento ouve-se uma sirene da polícia a tocar, mas ao de leve, quase como se não fosse real. E aí surge a magia do cinema: não por não sabermos distinguir realidade de ficção, mas porque os grandes filmes nos deixam na dúvida.
Miguel Mesquita Montes
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