“Ainda, sobre o centenário do...”
Há instituições que não pertencem à superficialidade do presente, situando-se numa dimensão mais profunda da história. Onde o tempo deixa de ser uma sucessão linear de acontecimentos para se transformar em memória viva. Registada, partilhada e sempre atual. O Correio do Minho é uma dessas raras presenças. A sua publicação contínua não celebra apenas uma data, celebra uma permanência. E, a capacidade de atravessar gerações, regimes políticos, mudanças tecnológicas e transformações sociais sem nunca perder a voz do território. 100 anos a ler o espaço e a escutar o tempo. Quando penso neste aniversário com discursos, testemunhos, champanhe, muita e merecida festa não me ocorre, em primeiro lugar, a história institucional do jornal, nem a dimensão admirável dos seus números. Vem-me à memória a vivência e a imagem de uma casa minhota numa manhã húmida de inverno, a névoa suspensa sobre os campos, o rumor distante dos sinos e, sobre a mesa da entrada, o jornal acabado de chegar, trazendo consigo o mundo inteiro e, ao mesmo tempo, a intimidade de uma região. As minhas primeiras memórias do Correio do Minho confundem-se com a infância e a juventude. Nessa idade, os objetos possuíam alma e o jornal era um desses companheiros familiares. Chegava com a regularidade das estações, tão naturalmente como o regresso das andorinhas. Em família, percorríamos as páginas com uma atenção quase cerimonial, numa sabedoria silenciosa que nos ensinava que as notícias são fragmentos da história comum que nos ligam uns aos outros. Depois vinham os........
