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“Não à guerra! ”

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10.03.2026

Diz-se muitas vezes que a verdade é uma das primeiras vítimas da guerra. Tal sucede, porque cada opositor tenta controlar a informação que é divulgada, uma vez que não lhes interessa que as pessoas saibam, verdadeiramente, a evolução dos confrontos. Aliás, antes do primeiro disparo ocorrer, já existe outro combate, o da informação. A busca incessante do apoio popular, por um lado, e a tentativa de desmoralizar o inimigo e colocar o seu povo contra os dirigentes políticos, levam os governos, e não só, a omitir e a alterar factos que decorrem da evolução da guerra. E é assim que a propaganda passa a ocupar o lugar da informação imparcial, transformando aquilo que nos é apresentado como notícia em armas poderosas, ao serviço de estratégias bélicas. A protecção da verdade em tempos de guerra constitui, por essa razão, uma tarefa fundamental, embora extraordinariamente difícil, tanto mais que a entrada em cena da inteligência artificial veio dificultar ainda mais a distinção entre realidade e manipulação. Nesta nova realidade, incumbe aos jornalistas, aos historiadores, mas também aos cidadãos, serem os guardiões da preservação dos factos que na realidade ocorrem numa situação de caos, como são aquelas que se vivem em tempos de guerra. E essa missão assume particular relevância, não apenas para melhor compreender o momento presente, mas para assegurar a memória dos factos e a compreensão da história nos tempos vindouros. Ultrapassadas estas questões mais ou menos filosóficas, passemos então a matérias mais pragmáticas, igualmente importantes, num conflito como aquele que se iniciou há pouco mais de uma semana. E estas, que se prendem com a posição oficial espanhola sobre o conflito, correspondem a factos que podem ser comprovados. O primeiro-ministro espanhol recusou a utilização das bases militares de Rota (Cádiz) e Morón (Sevilha), pelos Estados Unidos para os ataques ao Irão, o que provocou a ira do presidente norte-americano, ao ponto de lançar a ameaça de bloquear o comércio com Espanha. Pedro Sanches não se amedrontou e fez saber o papel da Espanha neste processo: “Não vamos ser cúmplices de algo que é mau para o mundo por medo de represálias”. Ao resumir a posição do Governo espanhol com total clareza, utilizando a frase “não à guerra“, Pedro Sanches reviveu, de certo modo, as declarações do seu camarada José Luís Zapatero quando, em 2003, enquanto líder da oposição, se opôs com firmeza à participação de Espanha na guerra que os Estados Unidos da América lideraram contra o Iraque. “A posição da Espanha é a mesma que na Ucrânia ou em Gaza”, manifestando-se contrária “à violação do Direito Internacional, que nos protege a todos.” Por essa razão, recusa a “resolução de conflitos com bombas”, até porque “o mundo já passou por isso antes“, quando, há 23 anos, o Governo de José Maria Aznar “levou” o país à guerra do Iraque, a qual “gerou um aumento drástico do terrorismo” e “uma grave crise migratória e económica”. “Esse foi o presente do trio dos Açores: um mundo mais inseguro e uma vida pior”, concluiu. A posição de Pedro Sanches não é nova, bem pelo contrário, o primeiro-ministro espanhol tem sido, no seio da União Europeia, a voz mais crítica em relação ao presidente norte-americano. Foi assim em relação a Gaza, mais tarde também sobre a operação dos EUA na Venezuela, para capturar o presidente Nicolás Maduro, e teve atitude idêntica aquando do brutal aumento do contributo para a NATO, destinado a enormes investimentos em armamento. Neste caso concreto, a ameaça de Trump surgiu sob a forma de sugestão de expulsar a Espanha da Aliança Atlântica. Ao contrário do que alguma extrema-direita espanhola pôs a circular, a posição oficial de Espanha não significa um alinhamento, político ou ideológico, com o Irão, bem pelo contrário. Tem a ver unicamente com as questões de direito internacional e com a firme convicção de que os problemas não se resolvem à bomba, mas sim pelo diálogo. Aliás, Sanches acentuou que “repudiamos o regime do Irão, que reprime, que mata vilmente os seus cidadãos, em especial as mulheres, mas, ao mesmo tempo, também rejeitamos o conflito e pedimos uma solução diplomática e polí- tica”. A corajosa posição do Governo de Espanha “não é ingénua, é coerente”, sendo, aliás, idêntica à que assumiu relativamente à Ucrânia, a Gaza, à Venezuela ou à Gronelândia, acrescentou Sanches, frisando que os ataques ao Irão e a resposta do regime de Teerão desrespeitam o direito internacional e a Carta das Nações Unidas. “Ingénuo é acreditar que as democracias e o respeito entre nações brotam das ruínas, ou pensar que praticar o seguidismo cego e servil é uma forma de liderar. A nossa posição não é ingénua, pelo contrário, é coerente, não vamos ser cúmplices de algo que é mau para o mundo e contrário aos nossos interesses simplesmente por medo de represálias de alguém”, acrescentou. Na mesma linha, aliás, num dos derradeiros actos do seu último mandato (a posse do general João Cartaxo Alves como novo chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas), Marcelo Rebelo de Sousa lamentou o atual estado da diplomacia. Segundo o semanário Expresso, o Chefe de Estado ainda em funções disse que “a diplomacia, para já, perdeu a voz, e, com ela, o multilateralismo, as organizações internacionais e os princípios e regras do direito internacional. São invocados quando são para justificar a posteriori factos consumados“, concluiu. Uma boa notícia, que nos dá sinais de alguma esperança no que concerne à União Europeia, foi a resposta do Executivo comunitário à ameaça do líder da Casa Branca contra Espanha. Um porta-voz da instituição disse que Bruxelas “irá garantir a plena proteção dos interesses da UE”, antes de acrescentar: “solidarizamo-nos plenamente com todos os Estados-membros e todos os seus cidadãos e, através da nossa política comercial comum, estamos preparados para agir, se necessário, para salvaguardar os interesses da UE”. Ora, todos sabemos que a União Europeia, embora não sendo uma superpotência militar, detém um poder económico, regulatório e diplomático que a coloca no patamar das grandes potências estruturais do sistema internacional. É importante que não perca essa qualidade.

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