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“Março ou a vida em ato único”

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27.03.2026

Lembro-me do primeiro contacto com a sua escrita ter sido com as crónicas. Uma avidez por aquela forma engajada de escrever, vozes em diálogo constante a demolir o aparente monólogo. O sentido renovado da palavra em construções difusas, mas que ainda assim faziam sentido, uma linguagem com impressão digital. Não sei se será ironia, se a vida brinca consigo mesma até ao último suspiro. O homem que viveu a cicatrizar os pedaços da criança que um dia foi e foi deixando cair pelo caminho do crescimento obrigatório, sem sentidos únicos a direcionar o fluxo de vozes que lhe fantasmagoraram a existência, esteve nos últimos tempos embrenhado em nevoeiro. Ou talvez tenha deambulado demasiado pelos labirintos que alimentava, adensando assim a coleção de dédalos. Isso, ou a busca incessante por exumar do olhar aquele pé de criança pendurado para fora do lençol. No coar de tudo o que foi dito e lembrado, senhor Barata incluído, os livros. O que António teria de mais íntimo continua disponível para quem o quiser descobrir ou revisitar. Sim, nos livros o que cada um tem de mais íntimo, o pensamento toscamente alinhavo pela difícil arte de caçar palavras que sirvam o propósito de alcançar o indizível. Entre as crónicas dos bons malandros também Mário Zambujal nos deixou recentemente, sem deixar cair o humor no seu emprego a recibo verde, como dizia que era a vida. Já a escrita era com a cabeça abraçada ao lado recreativo, entre o humor e o derrame interior, no papel. Frequentemente, nas aulas ou sessões de escrita, uso um pedaço de uma frase que me ficou de uma das primeiras crónicas que li do António Lobo Antunes, penso que no Jornal de Notícias, para exemplificar a diferença entre texto literário e texto não literário. Se a memória não me labirinta, há um maestro entusiasmado com o momento, intenso de música, intenso de intenção e emoção partilhada, “… o maestro borboleteou as pálpebras…”. Este pedaço ficou-me gravado, entre outros, mas a este recorro, facilmente, retirado da algibeira da memória para uso rápido. Poesia em movimento, transformação de um nome comum num verbo de ação inexistente e, no entanto, tanto ali, visual e tradutor instantâneo do movimento que necessitaria de tantas mais palavras para ser descrito e entendido e depois visualizado na mente do leitor. Poesia. Este é o mês da poesia, da primavera e da partida destes gigantes da nossa identidade cultural coletiva. Poesia. Essa exímia economia da palavra, dizer tanto com tão pouco, fazer tanto com tão pouco, dar tanto com tão pouco. Poesia. Esta palavra que engloba mundos tão diversos e dispersos. E, no entanto, de um entendimento tão sublime que consegue agregar num verso a condição humana que prolifera das raízes mais torguianas ao voo mais icaroso. Poesia. Aqui, entre nós, como um magma que nos une nesta condição de bicho que, teimosamente, vai adiando a morte. Uma espécie de tanatose obsessiva, se quiserem.

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