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As intenções do "mimimi"

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07.04.2026

"Os dois viados do meu lado." Foi essa a frase que ouvi na saída do banheiro após uma sessão de cinema na última semana. Dois homens adultos comentavam que outras pessoas sentadas ao lado deles haviam acertado o palpite para o desfecho do filme O drama. O termo utilizado para se referir aos desconhecidos foi "viados". Desde então, sigo refletindo: será que existe uma problematização necessária no uso desse termo ou seria apenas o que convencionou-se chamar de "mimimi" — uma reclamação supostamente sem fundamento?

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Há alguns anos, eu me imaginava como uma pessoa totalmente avessa a qualquer tipo de "mimimi". Era aquele tipo de indivíduo que encarava qualquer contestação ou problematização como algo perfeitamente dispensável. "Quem eles pensam que são para reclamar de algo? Eu já sofri muito nesta vida e nem por isso fui reclamar nas redes sociais" era o tipo de pensamento que entrava em ebulição em minha mente diante de pautas identitárias ou sociais.

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Com o passar do tempo, contudo, passei a perceber que esse tipo de postura era fruto do que hoje chamo de uma "manipulação estrutural". Não no sentido literal e rasteiro da palavra, mas como uma espécie de controle social, uma forma de conduzir o indivíduo a reproduzir um pensamento que não é, necessariamente, fruto da própria lógica ou vivência. Um fenômeno que os mais jovens talvez classifiquem como um "gaslighting" coletivo, em que a percepção da realidade é distorcida para favorecer o status quo.

Agora entendo que o discurso que popularizou a expressão "mimimi" está intrinsecamente ligado a uma parcela da sociedade que busca silenciar as demandas de minorias. Calar a reclamação pelo deboche é a maneira mais efetiva de lidar com um problema sem ter o incômodo de resolvê-lo na prática. É uma estratégia de invisibilidade: se a dor do outro é tratada como "frescura", não há obrigação moral de acolhimento ou mudança de comportamento.

O grande "pulo do gato", dentro do labirinto da minha consciência, é que uma parte de mim ainda acredita na existência ocasional do "mimimi". Sei que pode parecer contraditório — e talvez seja —, mas mesmo compreendendo que o discurso de calar uma voz por meio do escárnio é uma ferramenta de opressão, também sinto que existem reclamações que beiram o infundado ou o performático. Talvez o grande desafio da maturidade contemporânea seja justamente entender como distinguir a dor legítima da conveniência retórica.

Para elevar a complexidade da questão, sustento outra opinião que costuma ser impopular: as redes sociais são o pior ambiente possível para esse discernimento. Posts que atacam o "mimimi" ou que reagem de forma agressiva a quem o contesta não produzem síntese. Eles não trazem mais democracia para a discussão, nem abrem canais de reflexão sobre opiniões divergentes. Ao contrário, as plataformas digitais apenas embalam discursos de ódio em algoritmos de engajamento, fechando as portas para uma comunicação genuína e empática.

Até agora, não consegui definir se a frase dos "viados" ouvida no cinema foi uma agressão gratuita ou apenas uma gíria despretensiosa. A realidade pode habitar o cinzento intervalo entre os dois. O que sei, contudo, é que o exercício de pensar sobre a linguagem e o peso das palavras me fez bem. Às vezes, o simples ato de suspender o julgamento para refletir, sem a pressa de chegar a conclusões definitivas, já é um ato de resistência contra a superficialidade do nosso tempo. O silêncio que se segue ao pensamento costuma ser muito mais revelador do que o ruído das certezas absolutas.

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Subeditor da editoria on-line do jornal Correio Braziliense. Formado em Comunicação Social - Jornalismo pela Faculdade de Comunicação (FAC) da Universidade de Brasília (UnB). Entusiasta de automobilismo, séries e entretenimento em geral.


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