Filmes universais: Câmeras que projetam crises e utopias
Acaba de terminar a 61ª edição das Jornadas de Cinema de Soleura (Journées de Soleure, em francês; ou de Solothurn, em alemão), onde, em grande parte, o raio-X do continente mostrou a imagem da oferta cinematográfica.
Soleura é o mais suíço de todos os festivais organizados nesse país. Dá ênfase ao cinema suíço, embora muito marcado pela forte marca do regional. Isso não é coincidência: apenas 140 quilômetros separam Soleura de Freiburg, Alemanha; apenas 150 de Besançon, França; e 200 da fronteira com a Áustria. Com menos de 20 mil habitantes, às margens do rio Aare e aos pés da Cadeia do Jura, a cidade recebe milhares de espectadores que enchem as suas sete salas durante o Festival. Este ano – de 21 a 28 de janeiro – o Festival contabilizou mais de 65 mil ingressos, repetindo sua conhecida efervescência cinematográfica com a marca de hoje e daqui.
Palestina, longe e próxima à Europa
O documentário Quien todavia vive (Qui vit encore, seu título original em francês) do cineasta genebrino Nicolas Wadimoff, uma coprodução suíço-francesa, venceu o Grand Prix de Soleura. Dá voz a nove refugiados palestinos que relatam suas vidas, a perda de entes queridos e a tentativa de reconstruir suas vidas após o trauma de uma agressão não resolvida. "Ao compartilhar suas histórias, os protagonistas buscam se reconectar consigo mesmos, deixar de ser fantasmas", enfatizou o júri ao lhe conceder o prêmio principal, acrescentando que é uma obra que alcança um grande feito ao criar um contexto muito distante do campo de batalha em Gaza, sem cenas diretas de agressão para melhor transmitir o drama da destruição física e das perdas humanas (https://www.youtube.com/watch?v=DU0yYhJR3wgs).
No mesmo lugar por onde se movem, os protagonistas desenharam um mapa estilizado de Gaza: o desenharam juntos, de memória, com giz branco. Por outro lado, no centro desse cenário onde o filme se passa na íntegra, sobre uma mesa negra, reconstroem com marcadores brancos e traços improvisados onde se localizavam suas casas, seus jardins, suas hortas e pomares. Agora tudo está destruído. O local das filmagens é pouco iluminado, tudo ao redor está no escuro: um espaço apropriado para o reencontro de pessoas que, por muito pouco, escaparam da morte. Os testemunhos são de partir o coração e se sucedem como um caminhar vagaroso. "Quanto sofrimento uma vida pode suportar? Eu não sei...", alguém exclama. "Quem substituirá os dias e as memórias? Quem vai trazê-los de volta?" acrescenta outro. "Em uma guerra, se vive sempre tendo a morte como pano de fundo. É preciso apenas sobreviver", reflete outro dos protagonistas. "Um dia todos nós nos reencontraremos em Gaza. Vamos cantar e dançar juntos. Esse dia chegará, Inshallah", acrescenta uma das mulheres refugiadas.
Originalmente, esse filme seria filmado na Suíça, mas, em........
