menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

A arte de demonizar o estrangeiro

14 0
23.05.2026

Por Sergio Ferrari - Os ventos anti-imigração que sopram fortemente na Europa também estão atingindo a Suíça. No dia 14 de junho, seus cidadãos terão que se pronunciar sobre uma iniciativa que visa controlar o número de estrangeiros residentes. Se essa iniciativa for aprovada, causará um terremoto político no próprio país, assim como em suas futuras relações com o restante do continente do qual depende. Se rejeitada nas urnas, a extrema-direita europeia perderá uma batalha de importância simbólica. Por essa razão, o resultado das urnas suíças pode ser lido em termos de continente.

Proposta da extrema-direita suíça

No segundo domingo de junho, os suíços se manifestarão sobre a iniciativa "Não a uma Suíça de 10 milhões!", também conhecida como "Iniciativa de Sustentabilidade", que propõe estabelecer esse limite máximo populacional até 2050. É promovida pelo Partido Popular Suíço (PPS), também chamado de União Democrática de Centro (UDC, em sua sigla em francês). Seu programa é eurocético, soberanista e de direita, aproximando esse partido – o mais importante ao nível eleitoral na Suíça, com 30% do eleitorado – das forças políticas mais reacionárias do continente.

A iniciativa propõe não ultrapassar a marca de 10 milhões de habitantes antes de 2050. Se o limite de 9,5 milhões for ultrapassado antes dessa data, o Executivo e o Parlamento terão que adotar medidas, restringindo, em particular, o asilo e a reunificação familiar. Quanto à imigração regular, a Suíça teria que renegociar, em uma segunda fase, os acordos internacionais que a facilitam. Se tudo isso não for suficiente e os 10 milhões forem ultrapassados, o acordo sobre a livre circulação de pessoas com a União Europeia (UE) deverá ser encerrado, comprometendo a participação da Suíça nos Acordos de Migração de Schengen e Dublin e, consequentemente, a estreita colaboração em matéria de asilo e segurança. Por efeito dominó, no caso do colapso desses acordos, os outros tratados bilaterais de cooperação Suíço-União Europeia poderiam ser declarados nulos, sem efeito, estabelecendo assim uma espécie de "Brexit à moda suíça" (como no exit ou saída britânica) que reatualizaria o cenário vivido com a separação da Grã-Bretanha da União Europeia, em junho de 2016. A diferença com essa fratura é que os britânicos, até então, faziam parte da União, enquanto a Suíça nunca se integrou formalmente à mesma, embora tenha assinado uma série de tratados bilaterais que favorecem as relações econômicas ativas com ela. A União Europeia é o principal parceiro sócio comercial, dos intercâmbios científico-culturais, de defesa, de controle do espaço aéreo, de colaboração policial e militar, de alfândegas/aduanas e migração, para citar apenas algumas áreas de incidência, e sem elas a Suíça se transformaria em uma ilha continental murada, de difícil acesso e, portanto, profundamente debilitada.

Nesse cenário, seria obrigatório, por exemplo, tramitar vistos para transitar da Suíça para a Alemanha, Áustria, França e Itália e vice-versa. Quase........

© Brasil 247