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Do palco de Xangai à virilha de Xuxa: o cinema explica o resto

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02.08.2026

Xuxa, aos 63 anos, sendo cobrada por um decote e por uma calcinha à mostra em cima de uma nave suspensa por cabos, e respondendo à cobrança com a mesma arma que sempre soube manejar — o humor. “O último voo da virilha… ops, da nave”, ironizou, depois de dias sendo lida como “imprópria” para seu figurino em plena turnê “O Último Voo da Nave”. O episódio, ele mesmo pequeno, expõe um mecanismo enorme e recorrente que é o corpo que envelhece e ainda assim insiste em ser desejante, em ocupar palco e que não precisa pedir licença. Mas aqui ele é imediatamente devolvido ao lugar da falta de decoro. Não é a nudez que incomoda, aliás a nudez foi banida em nome de alguém — e no caso de Xuxa é a nudez fora do prazo de validade que a sociedade estabeleceu para ela. E é exatamente esse mecanismo, uma economia da autorização dos corpos, que também rege, com violência muito mais aguda, a vida das travestis e das pessoas trans: não o que se mostra, mas quem tem permissão de se mostrar sem que isso seja lido como provocação e excesso.

Chamo esse regime de subjetividade descartável (York, 2026), a lógica segundo a qual certos corpos são tratados como obsolescência programada da experiência humana — válidos até certo ponto, uteis até certa idade, legíveis até certa conformidade, e depois disso, descartáveis, motivo de chacota ou de espantalho.

É curioso que a Pixar tenha, quase sem querer, produzido a alegoria perfeita desse regime em “Toy Story 5”. Ali, os brinquedos de Bonnie perdem espaço para o tablet Lilypad, e o filme trata com ternura algo que costumamos tratar com crueldade, o medo de deixar de ser necessário, a angústia de quem sente que seu tipo de afeto — mais lento, mais tátil, mais presente, menos ansioso — já não compete com o brilho frio das telas. Woody, mais velho,........

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