As três perguntas que o Brasil não consegue responder
Há momentos na história política em que os acontecimentos deixam de ser apenas acontecimentos e passam a exigir alguma explicação. Não necessariamente porque sejam inexplicáveis, mas porque as explicações disponíveis parecem pequenas diante daquilo que está acontecendo.
A eleição de Jair Bolsonaro em 2018 foi um desses momentos. A quase reeleição do presidente em 2022 foi outro. E o resultado do primeiro turno de 2026 acrescentou uma dimensão ainda mais perturbadora ao problema: oito anos depois de sua chegada ao poder, depois de um governo marcado por conflitos institucionais, depois da derrota eleitoral de Jair Bolsonaro e depois dos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, o nome da família Bolsonaro voltou a ocupar o primeiro lugar em uma eleição presidencial. Flávio Bolsonaro não venceu a eleição em primeiro turno, e disputará o segundo turno com Lula em 25 de outubro, mas o dado politicamente relevante está justamente na capacidade de reprodução eleitoral do fenômeno. Em 4 de outubro de 2026, um Bolsonaro voltou a ser o candidato mais votado para a Presidência da República, com 47,03% dos votos válidos.
Os números ajudam a dimensionar a trajetória. Em 2018, Jair Bolsonaro foi eleito com 57.797.847 votos, equivalentes a 55,13% dos votos válidos no segundo turno. Quatro anos depois, derrotado por margem estreita, ainda obteve 49,10%, ou 58.206.354 votos. Em 2026, seu filho, Flavio, alcançou 56.104.268 votos no primeiro turno. Essa sequência impede que o bolsonarismo seja tratado apenas como um acidente eleitoral de 2018 ou como uma reação passageira às crises acumuladas na década anterior. O que nasceu como candidatura de ruptura transformou-se em identidade política, rede de interesses, comunidade afetiva, sistema de comunicação, linguagem moral e, progressivamente, uma estrutura eleitoral capaz de sobreviver ao próprio líder. O mais desconcertante, portanto, talvez não seja a ascensão de Bolsonaro, mas a permanência do fenômeno depois dele.
É preciso reconhecer, antes de tudo, que o problema não pode ser explicado simplesmente pela ignorância dos eleitores. A hipótese de que milhões de brasileiros desconhecem as características autoritárias do bolsonarismo é confortável demais para ser intelectualmente satisfatória. Tampouco basta atribuir o fenômeno às redes sociais, ao ressentimento econômico, ao fundamentalismo religioso, ao antipetismo, à criminalidade ou à crise das instituições. Todos esses elementos importam, e alguns deles foram decisivos em momentos específicos, mas nenhum, isoladamente, explica a dimensão alcançada pelo movimento. O bolsonarismo nasceu em uma sociedade profundamente desconfiada da representação política, num ambiente em que partidos, Congresso, governo e instituições de Estado acumulavam níveis elevados de descrédito.
Jair Bolsonaro chegou à Presidência vindo das margens do sistema partidário tradicional, justamente explorando a percepção de que o sistema havia se tornado incapaz de representar o país real. Estudos sobre a ascensão de Bolsonaro em 2018 identificam essa combinação entre descontentamento institucional, antipetismo, apoio de segmentos evangélicos, policiais, militares, setores empresariais e parcelas importantes das classes médias. O fenômeno, portanto, não surgiu fora do sistema, mas da crise de legitimidade do próprio sistema.
Foi nesse terreno que a política deixou de ser compreendida apenas como disputa por projetos de governo e passou a ser percebida como uma luta existencial entre dois campos. Essa transformação é fundamental para entender o que veio depois, porque, quando a política assume caráter existencial, a democracia deixa de ser apreciada pelo conjunto de suas regras e passa a ser julgada pela capacidade de produzir o resultado considerado legítimo por cada grupo. A derrota deixa de ser uma contingência normal da alternância democrática e passa a ser interpretada como sinal de fraude, captura ou corrupção do sistema. O adversário deixa de ser adversário e passa a ser inimigo; a instituição que limita o próprio campo deixa de ser parte da democracia e passa a ser apresentada como obstáculo à vontade popular. É nesse ponto que começam as perguntas para as quais ainda não temos respostas satisfatórias.
1. O que leva um país como o Brasil a voluntariamente negar as bases de sua jovem democracia liberal e a manutenção do Estado de Direito?
Talvez a primeira dificuldade esteja justamente na palavra “voluntariamente”. O eleitor brasileiro não acorda pela manhã e decide votar contra o Estado de Direito. Quase ninguém formula sua escolha nesses termos. A erosão democrática ocorre porque a democracia, em determinado momento, deixa de ser percebida como patrimônio comum e passa a ser julgada como parte do problema. Uma democracia liberal exige algo mais do que eleições periódicas. Exige o reconhecimento de limites ao poder da maioria, respeito às instituições, aceitação da derrota, proteção das minorias, liberdade de imprensa, autonomia dos Poderes e submissão do governo à lei. O paradoxo é que esses mesmos mecanismos podem ser utilizados de maneira perfeitamente eleitoral para levar ao poder alguém que não compartilha integralmente dos valores liberais que sustentam o regime. A democracia contém, em sua própria estrutura, a possibilidade de entregar o poder a quem deseja redefinir os limites da própria democracia.
Foi exatamente essa tensão que o Brasil experimentou a partir de 2018. A literatura sobre o período identifica um processo de autocratização associado a ataques ao Judiciário, ao sistema eleitoral, às instituições de controle, à participação social e à própria competição política. Ao mesmo tempo, as instituições brasileiras demonstraram capacidade de resistência, impedindo que a erosão democrática se convertesse em ruptura definitiva. A contradição é importante porque impede leituras fáceis dos últimos........
