Você é um homem ou é um ratinho?
O apresentador Silvio Santos foi o pioneiro, no que diz respeito a dar visibilidade a travestis e transexuais na televisão brasileira. Nos anos 1980 ele criou o quadro “Concurso de Transformistas”, abrindo espaço para a comunidade LGBT mostrar a sua arte, e provocando um debate sobre identidade de gênero no país. Roberta Close foi uma das artistas que ganharam destaque nacional através do programa, inspirando a música “Close”, composta por Erasmo Carlos, na qual ele a retrata como uma “fêmea pra ninguém botar defeito”, e exalta o “corpo da mulher nota 10” que ela exibe e que “faz a praia inteira levantar, numa apoteose à beira-mar”. Porém, se “não fosse o gogó e os pés”, a sua lente teria “entrado na dela”, o que sugere um certo bloqueio diante daquela identidade de gênero pouco comum à época, apesar da paixão que a musa o havia despertado. Se Roberta Close tivesse uma aparência masculina, certamente o “Tremendão” não teria voltado as suas lentes para aquele “inenarrável monumento”, como ele a descreve na canção.
Apesar de o tratamento dado pelo “homem do baú” às transformistas no seu programa ter sido meio polêmico – uma vez que elas eram apresentadas como uma espécie de atração nos moldes do antigo “Freak Show” que se popularizou no século XIX, exibindo atrações vistas como curiosidades, ou, até mesmo, como aberrações – podemos dizer que foi algo benéfico do ponto de vista da inclusão social, e da humanização de corpos que até então eram vistos como uma ameaça a ordem natural das coisas. Vale lembrar, que nos anos 1980, sobretudo, em função do advento da Aids, as pessoas falavam abertamente em eliminar homossexuais e travestis, que eram apontados como os responsáveis pela transmissão do vírus. O ódio expresso contra os gays pode ser visto nesta reportagem, onde populares os sentenciam a morte sem o menor pudor, corroborando as ações de um maníaco que à época estava assassinando homens gays em São Paulo.
O tempo passou, mas o preconceito contra os chamados grupos minoritários ainda está presente na sociedade. E a população LGBT é um exemplo disto. Apesar dos avanços e conquistas, a luta dos integrantes deste grupo não é apenas pela defesa de seus direitos, mas também contra aqueles que não querem que eles tenham qualquer direito, e se apegam ao conservadorismo para justificar o seu ódio à existência destas pessoas. As falas do apresentador Ratinho direcionadas a deputada Erika Hilton, precisam provocar mais do que um processo jurídico contra ele. Elas precisam provocar reflexão na sociedade. O primeiro ponto a se analisar é o porquê de tais falas, e onde elas podem nos levar se absorvidas pela população. Eu me confesso intrigado e desconfiado com os motivos que levam um homem a ter uma visão falocêntrica a respeito de tudo. O cara não tira o falo da boca, e está sempre “sentado” sobre ele para validar a sua masculinidade. Como diria aquele personagem do Tom Cavalcante, o Pit Bicha: “macho até embaixo de outro macho”
Ao questionar a escolha de Erika como presidente da Comissão de Direitos da Mulher na Câmara, Ratinho evocou o “saco” da parlamentar para negar a sua identidade de gênero feminina, e disparou que mulher tem que ter útero, menstruação e TPM. Imbecilidades inerentes a sua figura artística, e que garantiram o seu sucesso entre uma parcela da população durante todos esses anos. Eu fico imaginando mulheres acima de 60 anos, que já interromperam o ciclo menstrual, que não sofrem mais com a chamada “TPM”, e que, por algum motivo, não possuem mais útero. Elas teriam deixado de ser mulheres? Nós homens precisamos nos desconstruir, e entendermos que a realidade – seja ela cultural ou social - existe fora da nossa perspectiva masculina estabelecida como padrão normativo. Imbecis e outros ratinhos me chamarão de “feministo” por propor esta abordagem, sem considerar que o seu conceito de masculinidade é distorcido, e representa um problema para a sociedade como um todo. O aumento nos casos de feminicídio e de violência contra a mulher não me deixam mentir.
Quando Ratinho diz que “não aceita” Erika Hilton na presidência de uma comissão voltada para o direito das mulheres, ele está dizendo que não aceita qualquer identidade de gênero que foge à sua perspectiva cultural e social. Ao tentar tergiversar dizendo que não tem nada contra pessoas trans, e que até defende que elas tenham direitos, ele está abrindo uma forçosa exceção à sua perspectiva e apresentando essas pessoas como “coisas” que até podem ser tratadas com humanidade, mas que não representam o que ele entende, de fato, como seres humanos dignos de serem tratados com respeito e de terem plenos direitos. Seguindo esta mesma lógica, por que deveríamos tratar ratinhos como homens, se eles não possuem a mesma característica biológica? Podemos até aceitá-los como seres viventes, e garantir o seu direito a beliscar um pedacinho de queijo sem ficar preso numa ratoeira. Mas considerá-los representantes dos homens na sociedade, eu não aceito.
Incitar transfobia em rede nacional é só mais um upgrade no show de horrores que Carlos Massa sempre ofereceu como entretenimento televisivo. Atrações como o seu programa partem da premissa de que o povo, principalmente, o mais pobre, é burro e se diverte mesmo é com baixaria. Uma avaliação que lhe permite se posicionar à extrema-direita da maioria de sua audiência, sem ser questionado por ela. O processo anunciado por Erika Hilton contra Ratinho, é um posicionamento de resistência e de não aceitação da identidade de gênero trans como bagunça. Como se não bastasse o processo de demonização da Igreja contra a identidade homossexual, não se pode admitir que pessoas ou ratos saiam de seus esgotos convencionais para contaminarem o mundo espalhando a sua transfobia aos quatro ventos. Ratinho promoveu mais uma cruzada contra a existência de mulheres trans. O mesmo foi feito pela senadora Damares Alves, que também veio a público se posicionar contra a escolha de Erika Hilton para a presidência da Comissão, sob os mesmos argumentos utilizados por Little Mouse em seu programa.
Coube ao SBT se posicionar, e dizer que não compactua com a transfobia de Ratinho, informando que o assunto será tratado internamente pela emissora. A nota foi protocolar, mas já causa certo incômodo ao discurso do apresentador que teve suas ofensas gratuitas repudiadas por suas patroas. As herdeiras de Silvio Santos. Ratinho tem um histórico alinhado ao fascismo e a defesa de interesses contrários às necessidades da maioria da população. Em 2019, durante a gestão de Jair Bolsonaro, ele foi um dos apresentadores contratados pelo governo para estrelar uma campanha que custou R$ 40 milhões, e que defendia a reforma da previdência. O fim do direito à aposentadoria para o trabalhador brasileiro. Só um rato saído do mais fétido esgoto se prestaria a tal papel, sabendo que os castelos de queijos que ele hoje ostenta é graças à audiência majoritária das pessoas pobres e trabalhadoras que ele defende que não tenham mais aposentadoria. Que vergonha, Carlos Massa! Você é um homem ou é um ratinho?
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
