Oito anos de alertas. A cegueira tinha comando
Durante oito anos, os alertas se acumularam, enquanto a extrema-direita transformava redes de confiança em votos, representação parlamentar e poder institucional. Do outro lado, a direção governista chegou a 2026 reconhecendo falhas que já não podia ignorar. O primeiro turno expôs muito mais que um erro eleitoral. Revelou o custo político de confundir informação com inteligência, comunicação com organização e autoridade com capacidade estratégica. Às portas do segundo turno, permanece uma questão incontornável: quem tinha a responsabilidade de enxergar os sinais, por que não respondeu à altura e o que ainda pode ser corrigido?
O erro tinha nome, data e responsáveis
Em 10 de setembro de 2026, faltando 24 dias para o primeiro turno, Edinho Silva, presidente nacional do PT e coordenador-geral da campanha de Lula, reconheceu publicamente um “erro de planejamento”. A produção de material eleitoral havia sido descentralizada para estruturas estaduais que não conseguiram atender à demanda. Sob pressão, a direção voltou a concentrá-la nos grandes centros e anunciou a correção do problema. Na véspera, a imprensa já registrara reclamações sobre a falta de bandeiras, panfletos e adesivos, além da irritação de Lula com vazamentos de reuniões reservadas. A crise não foi descoberta na contagem dos votos. Era conhecida por quem comandava a operação.
O reconhecimento tampouco encerrou as dificuldades. Em 18 de setembro, a direção do PT cobrou dos candidatos proporcionais a inclusão de Lula e dos demais nomes majoritários nos materiais de campanha e ameaçou exigir a devolução de recursos eleitorais em casos de descumprimento. Ainda circulavam peças sem referência às candidaturas da própria aliança, enquanto dirigentes relatavam escassez de material. Numa eleição que escolheria presidente, governadores, dois senadores por estado e parlamentares, articular esses nomes era parte da organização do voto. A questão não era a quantidade de propaganda impressa, mas a dificuldade de converter decisões nacionais em ação coordenada nos territórios.
Em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, diferença superior a 2,2 milhões de votos. Três dias depois, diante de parlamentares aliados, o presidente classificou aquela como a campanha menos organizada de que participara desde 1989. Admitiu também sua surpresa por não terminar à frente do adversário, considerando as realizações do governo. Uma declaração tratava da execução eleitoral. A outra mostrava a distância entre aquilo que o Planalto julgava ter entregado à sociedade e a resposta política que esperava receber.
Não existe base para atribuir a escassez de material ou as disputas internas à diferença final de votos. A responsabilidade política não exige essa simplificação. Houve problemas reconhecidos antes da eleição, medidas anunciadas como corretivas e novas reclamações na reta final, até a avaliação pública do próprio candidato. Edinho ocupava a coordenação-geral, mas decisões e recursos circulavam por instâncias partidárias, equipes de comunicação e pelo entorno presidencial. O que precisa ser explicado é como uma estrutura dotada de autoridade e meios de execução deixou persistir falhas que seus dirigentes já haviam identificado.
Oito anos de sinais que não se transformaram em inteligência
Em 2018, Jair Bolsonaro chegou à Presidência. Quatro anos depois, Lula recuperou o governo por uma diferença de 2,14 milhões de votos, mas o presidente derrotado recebeu 58,2 milhões de votos. A alternância no Planalto não havia desfeito sua base social. Em estudo publicado em 2026, o cientista político Jairo Nicolau mostrou que a geografia eleitoral de 2018 e 2022 permaneceu relativamente estável. O resultado se inverteu sobretudo porque diminuíram as vantagens bolsonaristas nas grandes cidades do Sudeste. A vitória de Lula não significava, portanto, que o campo adversário tivesse perdido sua capacidade de organização.
Em junho de 2023, o Tribunal Superior Eleitoral declarou Jair Bolsonaro inelegível por oito anos. A decisão restringiu sua trajetória pessoal nas urnas, não a atuação das estruturas que gravitavam em torno dele. Nas municipais de 2024, o PL conquistou 516 prefeituras, ante 345 em 2020. Prefeitos da mesma legenda não formam necessariamente um bloco........
