O adulto na sala
Há momentos em que a história parece inverter seus próprios pressupostos. Este é um deles. Durante décadas, a periferia foi convocada a aprender, seguir e adaptar-se às regras formuladas pelos centros de poder. Hoje, porém, uma das principais potências do Sul Global é chamada a participar justamente da tentativa de administrar a crise daqueles que, durante gerações, reivindicaram para si o monopólio da liderança internacional.
O convite que não deveria existir
O convite feito a Lula revela uma ironia histórica difícil de ignorar. No momento em que os Estados Unidos retomam pressões sobre a América Latina, a Europa enfrenta impasses econômicos e estratégicos, e as instituições internacionais atravessam uma crise de legitimidade sem precedentes, uma das vozes mais procuradas para discutir estabilidade, desenvolvimento e governança global vem justamente da periferia do sistema. O Brasil chega ao G7 sob ataques comerciais e pressões geopolíticas, mas também carregando um ativo raro no cenário internacional: autonomia.
Durante anos, Luiz Inácio Lula da Silva tratou o G7 com um ceticismo difícil de esconder. Via no grupo um clube cada vez menos representativo de um mundo que já não cabe nas fronteiras políticas e econômicas do Atlântico Norte. Não por acaso, repetiu mais de uma vez que o G20 refletia melhor a realidade contemporânea do que a reunião das velhas potências industriais. Havia lógica nessa crítica. O centro de gravidade da economia global mudou, novas potências emergiram, e o século XXI tornou impossível sustentar a ficção de que sete países poderiam continuar falando em nome do planeta.
Por isso, a decisão de comparecer à cúpula realizada na França carrega um significado que vai muito além da agenda diplomática. Lula não mudou de opinião sobre os limites do G7. O que mudou foi a dimensão da crise enfrentada por aqueles que continuam ocupando o topo da ordem internacional.
Ao justificar sua presença, o presidente brasileiro afirmou que era preciso "colocar ordem na casa". A frase chamou atenção pela aparente ousadia. Mas seu verdadeiro significado não está na retórica. Está no diagnóstico. Pela primeira vez em décadas, a principal ameaça à estabilidade do sistema internacional não vem de países considerados revisionistas ou periféricos. Ela emerge do próprio núcleo de poder que construiu a arquitetura política, econômica e institucional do pós-Guerra Fria.
A guerra voltou ao continente europeu. O Oriente Médio atravessa mais um ciclo de instabilidade. Organismos multilaterais perderam capacidade de coordenação. Regras comerciais são substituídas por disputas geopolíticas abertas. Sanções, tarifas e bloqueios voltaram a ocupar o lugar que antes pertencia à negociação. Em meio a esse cenário, a imagem mais reveladora talvez seja justamente a de um presidente latino-americano sendo chamado para participar das discussões sobre os rumos da ordem global.
O convite feito a Lula revela uma ironia histórica difícil de ignorar. Enquanto as potências que comandaram o mundo nas últimas décadas enfrentam crescentes dificuldades para administrar as consequências de suas próprias escolhas estratégicas, uma das vozes mais ouvidas na defesa do diálogo, do desenvolvimento e do multilateralismo passou a vir da periferia do sistema.
É essa inversão que torna a viagem à França relevante. O que está em jogo não é apenas a presença do Brasil em mais uma reunião internacional. O que está em disputa é algo maior: quem terá legitimidade para influenciar os rumos de uma ordem global que já não consegue produzir estabilidade nem mesmo para aqueles que a comandam.
O centro perdeu o monopólio da liderança
Durante boa parte dos últimos oitenta anos, liderança internacional e poder ocidental foram praticamente sinônimos. A estabilidade do sistema mundial dependia da capacidade dos Estados Unidos e de seus aliados de coordenar interesses, estabelecer regras e produzir consensos mínimos para o funcionamento da economia global. Havia conflitos, disputas e assimetrias, mas existia uma percepção relativamente difundida de que o centro do sistema possuía os instrumentos necessários para administrar as próprias crises.
Essa percepção começou a se deteriorar muito antes das guerras atuais. As intervenções militares fracassadas no Oriente Médio, a crise financeira de 2008, a crescente polarização das democracias ocidentais, o avanço da desigualdade e a incapacidade de responder de forma coordenada aos grandes desafios globais corroeram gradualmente a autoridade política construída no pós-Guerra Fria.
O problema não é apenas econômico. É sobretudo político. As mesmas potências que durante décadas apresentaram o livre comércio como fundamento da prosperidade global passaram a recorrer cada vez mais a sanções, barreiras tarifárias, subsídios estratégicos e instrumentos de pressão econômica. As mesmas lideranças que defendiam instituições multilaterais passaram a contorná-las quando seus interesses imediatos assim exigiam. As mesmas democracias que reivindicavam para si a condição de árbitros da ordem internacional tornaram-se incapazes de........
