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A nova razão de Estado: quando as plataformas governam

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27.06.2026

Ao longo da história, toda grande potência protegeu a infraestrutura que sustentava sua hegemonia. No século XXI, essa infraestrutura deixou de ser apenas industrial, energética ou financeira. Tornou-se também computacional. As grandes corporações de infraestrutura digital passaram a ocupar uma posição central nessa transformação. Hoje, organizam a economia, a inteligência, a guerra, a circulação da informação e a própria capacidade dos Estados de exercer soberania. A ameaça de Donald Trump de impor tarifas de 100% contra países que decidirem regulá-las ou tributá-las não inaugura uma nova política externa americana. Ela torna explícita uma transformação histórica muito mais profunda: a defesa dessas corporações passou a integrar a própria razão de Estado dos Estados Unidos. Este artigo demonstra como chegamos até esse ponto e por que essa mudança redefine a geopolítica, a soberania e as disputas de poder no século XXI.

Este artigo também representa a continuidade de uma linha de investigação que venho desenvolvendo nos últimos anos sobre guerra híbrida, operações psicológicas, soberania informacional, plataformas digitais, inteligência artificial e as transformações do poder na era da infraestrutura computacional. Ao longo desse percurso, esses temas deram origem a pesquisas que, à primeira vista, pareciam tratar de objetos distintos. O acontecimento desencadeado pela ameaça tarifária de Donald Trump permite, pela primeira vez, reuni-los sob uma mesma chave interpretativa. Mais do que inaugurar uma nova hipótese, este texto procura demonstrar que esses processos sempre fizeram parte de uma única transformação histórica: a mudança das condições materiais sobre as quais se exerce a soberania no século XXI.

Em 26 de junho de 2026, Donald Trump anunciou que os Estados Unidos poderão impor tarifas de até 100% contra países que decidirem tributar ou ampliar a regulação sobre grandes corporações tecnológicas americanas. À primeira vista, trata-se de mais um capítulo da guerra comercial iniciada anos atrás entre Washington e seus principais parceiros econômicos. Essa leitura, porém, perde o elemento central do episódio. Trump não inaugurou uma nova política externa. Apenas tornou explícita uma transformação histórica que vinha sendo construída silenciosamente ao longo de mais de duas décadas. Pela primeira vez, um presidente norte-americano assumiu de forma aberta que a expansão global de corporações privadas de infraestrutura digital constitui um interesse estratégico do Estado americano. A partir daquele momento, regular plataformas digitais deixou de ser apenas uma questão tributária, concorrencial ou tecnológica. Passou a significar, também, entrar em rota de colisão com a política externa da maior potência do sistema internacional.

Essa mudança altera profundamente a forma como devem ser interpretados acontecimentos que, até então, pareciam desconectados. A disputa entre o Supremo Tribunal Federal e as plataformas digitais, a revisão do artigo 19 do Marco Civil da Internet, o avanço do Digital Services Act europeu, a guerra dos semicondutores entre Estados Unidos e China, os contratos bilionários firmados entre o Pentágono e empresas como Amazon, Microsoft, Google, Oracle, OpenAI, Palantir e Anduril, assim como as pressões americanas contra iniciativas nacionais de tributação digital, deixam de representar episódios isolados. Todos passam a integrar um mesmo processo histórico: a disputa pelo controle da infraestrutura digital sobre a qual se organizam a economia mundial, os sistemas de inteligência, a capacidade militar, a circulação da informação e, cada vez mais, o próprio exercício da soberania.

Durante muito tempo, governos, analistas e boa parte da academia trataram Google, Amazon, Meta, Microsoft, Nvidia, Apple e OpenAI como gigantes econômicos cuja influência decorria do tamanho de seus mercados. Essa explicação tornou-se insuficiente. Essas corporações deixaram de ocupar apenas posições dominantes na economia digital. Hoje, controlam infraestruturas indispensáveis ao funcionamento do capitalismo contemporâneo: computação em nuvem, inteligência artificial, sistemas operacionais, ecossistemas móveis, publicidade digital, modelos fundacionais de IA, capacidade computacional, chips avançados, redes globais de dados e plataformas que intermediam parcelas crescentes da vida econômica, política e social. A novidade histórica não está apenas na concentração econômica, mas na natureza estratégica dessas infraestruturas.

É justamente esse deslocamento que a ameaça de Trump ilumina. Ao prometer retaliar economicamente países que decidam impor limites às grandes corporações tecnológicas americanas, Washington revela que a proteção dessas empresas já não responde apenas à lógica do mercado. Responde à lógica da razão de Estado. Como em outros momentos da história, quando grandes potências mobilizaram sua política externa para proteger rotas marítimas, reservas de petróleo, cadeias industriais ou a estabilidade do dólar, os Estados Unidos passam a tratar sua infraestrutura digital como um ativo estratégico cuja expansão internacional deve ser garantida pelo poder político, econômico e diplomático do Estado. Compreender essa transformação é indispensável para entender não apenas a política externa americana, mas a própria natureza da disputa geopolítica que definirá a soberania dos Estados no século XXI.

Quando muda a base material, muda a razão de Estado

Toda grande transformação da ordem internacional começa muito antes de aparecer nos discursos dos chefes de Estado. Ela nasce nas mudanças da base material que sustenta a acumulação de riqueza e, somente depois, reorganiza instituições, estratégias nacionais e relações de poder. Foi assim com a Revolução Industrial, quando ferrovias, carvão e siderurgia redefiniram a geopolítica europeia. O mesmo ocorreu no século XX, quando petróleo, indústria pesada, sistema financeiro internacional e capacidade militar passaram a estruturar a hegemonia norte-americana. Nenhuma potência preservou sua posição apenas pela força das armas. Todas protegeram, antes de tudo, a infraestrutura material que tornava........

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