Os turistas mudaram de destino
Lembro da fila da embaixada americana em Brasília, num daqueles fins de manhã em que o sol já cozinha o asfalto antes do meio-dia. Vi ali, ao longo dos anos, gente ensaiando respostas no caminho, gente aliviada ao sair com o carimbo aprovado, gente frustrada ao ouvir que precisaria voltar outro dia. Era processo burocrático como outro qualquer, com a diferença de que, do outro lado, havia sempre a expectativa de ser bem recebido ao chegar. Essa expectativa foi destruída em 2025, por decisão de governo, não por acidente do destino. Os números do turismo internacional apenas confirmam, um a um, o que os relatos de fronteira já denunciavam havia meses.
O turismo internacional para os Estados Unidos caiu 5,5% no ano — quase um em cada vinte visitantes que costumavam ir para lá simplesmente desistiu —, a pior queda em quase duas décadas, superada apenas pela pandemia de 2020. E não houve vírus algum em 2025. Houve política deliberada, hostilidade anunciada em rede social, fronteira transformada em armadilha. Traduzido em gente, o número fica ainda mais brutal: quatro milhões de estrangeiros deixaram de visitar o país em relação a 2024, o equivalente a somar as populações inteiras de Fortaleza e Recife e expulsar todo mundo, de uma só vez, para outro destino do planeta. Escrevo este texto sem nenhuma vontade de suavizar a acusação: atrás de cada estatística existe uma família que decidiu, à mesa de jantar, que aquele país deixou de merecer confiança.
Por que desisti, e por que tantos desistiram comigo
Tenho amigos que cancelaram viagens de trabalho e de lazer aos Estados Unidos neste último ano, e nenhum deles o fez por falta de dinheiro. Fizeram-no por medo, palavra que uso sem eufemismo, porque é a palavra correta. Essa é a pergunta que qualquer pesquisa séria de opinião hoje responde sem rodeio: por que tanta gente deixou de querer visitar um país que, até pouco tempo, era destino de primeira escolha? Um levantamento do site especializado Skift constatou que quase metade dos viajantes consultados — 46% — disse estar menos disposta a visitar os Estados Unidos em 2025 por causa das políticas do presidente Donald Trump. Não é opinião marginal. É quase metade do planeta viajante virando as costas para um único governante.
Penso na história de Rebecca Burke, mochileira galesa que fazia a travessia da América do Norte trocando pequenas tarefas domésticas por hospedagem, arranjo comum entre jovens viajantes havia gerações, e que terminou detida por três semanas, levada ao avião de volta algemada, segundo relatou o próprio pai, como se........
