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Qual sistema deve ser enfrentado?

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Nos últimos anos, tornou-se comum ouvir discursos inflamados contra o chamado “sistema”. Políticos, comentaristas e influenciadores repetem a expressão como se ela fosse autoexplicativa. Mas raramente se esclarece do que exatamente se está falando. Afinal, qual é esse sistema que tantos dizem combater?

Para alguns, o “sistema” seriam as instituições da República: o Congresso Nacional, o Judiciário, os partidos políticos, a própria política. Essa leitura, muito difundida por setores da extrema-direita, serve mais para alimentar ressentimentos e deslegitimar a democracia do que para explicar como o poder realmente funciona no Brasil.

O verdadeiro sistema é outro. É o sistema financeiro que estrutura e condiciona boa parte das relações de poder na sociedade brasileira. São os grandes rentistas, os donos do dinheiro, aqueles que controlam fluxos de capital, influenciam decisões econômicas e frequentemente operam nos bastidores das instituições formais. É esse sistema que molda prioridades econômicas, pressiona governos e busca garantir que seus interesses permaneçam intocados.

É nesse contexto que o escândalo envolvendo o Banco Master precisa ser analisado. Mais do que um caso isolado de fraude financeira, ele expõe uma engrenagem de poder que conecta bancos, operadores políticos, intermediários e figuras instaladas dentro do próprio Estado. Uma rede em que interesses privados se confundem com decisões públicas. As investigações indicam suspeitas graves: carteiras de crédito fraudulentas, prejuízos bilionários, lavagem de dinheiro e relações perigosamente próximas com setores da política e da administração pública. Surgem também indícios de que agentes posicionados em estruturas de regulação e fiscalização fecharam os olhos — ou algo pior — diante de irregularidades.

Durante o governo Bolsonaro, essa promiscuidade entre poder político e interesses desse sistema real de poder dos financistas ficou particularmente evidente. O então presidente do Banco Central e outros personagens do aparelho de Estado foram citados em investigações que apontam possíveis facilidades concedidas em troca de propina ou de complacência regulatória. No caso dos empréstimos consignados, decisões administrativas abriram portas para operações que hoje levantam suspeitas e questionamentos.

Esses personagens — porta-vozes do sistema financeiro dentro dos poderes da República — precisam ser identificados, investigados e, se for o caso, condenados. A responsabilização é necessária. Mas é preciso reconhecer que isso, por si só, não representará um verdadeiro enfrentamento ao sistema.

Punir operadores ou intermediários pode até produzir manchetes e satisfação moral, mas não altera a estrutura de poder que permite que essas engrenagens funcionem. É como prender o “boqueiro” da esquina e anunciar que se está combatendo o tráfico internacional de drogas. O problema central continua intacto.

Se o país quiser enfrentar de fato o sistema, o alvo precisa ficar claro: a lógica rentista que captura decisões públicas, condiciona políticas econômicas e transforma o Estado em instrumento de reprodução de privilégios financeiros.

Esse é um debate que o governo Lula precisa levar para as ruas. Não apenas como defesa política diante de ataques, mas como disputa de narrativa sobre quem realmente detém o poder e quais interesses precisam ser confrontados. Caso contrário, o risco é que o discurso udenista patrocinado por setores da imprensa — aquele que mistura tudo, coloca todos no mesmo saco e transforma a política em sinônimo de corrupção generalizada, e que já vimos no que deu no Brasil — acabe prevalecendo. E, quando isso acontece, quem sai fortalecido não é a democracia. São justamente os verdadeiros donos do poder.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.


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