Irã: o centro de uma disputa geopolítica global
“Isto também passará” - Frase persa.
É muito difícil saber, com precisão, o que está acontecendo, de fato, no Irã. Como sempre, a mídia ocidental fala na “sangrenta ditadura” do Irã e que centenas de pessoas já teriam sido mortas pela repressão do regime iraniano. De outro lado, imagens difundidas no Ocidente mostram incêndios de carros e construções, e o regime acusa alguns grupos de manifestantes de terem atirado e matado policiais iranianos.
O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, moderado e progressista, já fez vários apelos ao diálogo.
Nesse contexto nebuloso e contraditório, é preciso considerar que Israel e os EUA estão fortemente empenhados na derrubada do regime iraniano há muito tempo. Tanto o governo de Israel quanto o governo dos EUA têm capacidade de promover a chamada “guerra híbrida” e de articular e promover protestos via redes sociais e internet.
Embora o regime iraniano tenha derrubado a internet no país, os manifestantes estariam usando terminais da Starlink, de Elon Musk, para se articularem.
É claro que há um substrato real na insatisfação da sociedade iraniana, principalmente naqueles setores mais jovens e que vivem em grandes cidades, como Teerã, por exemplo.
Mas tal insatisfação não tem mais muito a ver com a promoção de valores tradicionais da sharia islâmica. Hoje em dia, por exemplo, a maioria das mulheres iranianas que vive nas grandes cidades não usa mais o hijab. O regime tornou-se bem mais permissivo, nesse aspecto.
A questão central é econômica.
Há de se observar que, desde 1979, o Irã tornou-se o país mais sancionado do mundo. Só perdeu esse “honroso” posto após a Rússia ter feito a intervenção militar na Ucrânia, em 2022, mas continua a ocupar um terrível e muito incômodo segundo lugar.
As dificuldades econômicas advindas, essencialmente, das sanções unilaterais dos Estados Unidos e de aliados, as quais restringem fortemente o acesso do Irã aos mercados internacionais e a consequente disponibilidade de moedas fortes, bem como congelam ativos iranianos em bancos no exterior, conformam um contexto de instabilidade política constante, que se agravou nos últimos anos. Somente entre 2012 e 2015, tais sanções teriam provocado um prejuízo acumulado de cerca de US$ 500 bilhões.
O ex-presidente reformista Hassan Rouhani, eleito em 2013 e reeleito em 2017, tinha conseguido reinserir parcialmente o Irã na comunidade internacional, mediante equacionamento do dossiê nuclear, com a assinatura do acordo sobre o programa nuclear iraniano (“Joint Comprehensive Plan of Action” – JCPOA).
Mas Trump, desde o seu primeiro governo, adotou uma política de “pressão máxima” sobre o regime do Irã e retirou os EUA do JCPOA, em 2018. Desde então, a tensão vem aumentando, com o Irã, compreensivelmente, se retirando de seus compromissos e os EUA, por seu turno, apertando as sanções.
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