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Democracias em crise, teorias em transe

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29.07.2026

A crise da democracia e a nova economia da desinformação

Já se tornou lugar comum observar que a democracia liberal está em crise. Desde a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos, em 2016, é impossível escamotear um processo que estava em curso há tempos. No país mais poderoso do mundo, cuja democracia gosta de se apresentar como modelo para todas as outras, o processo eleitoral levou ao poder um sujeito francamente despreparado, carente dos mínimos requisitos cognitivos ou morais para o exercício do cargo.

Seu triunfo foi ancorado na degradação total do debate público, já antes deplorado por sua superficialidade e imediatismo. Qualquer tentativa de discussão relevante era soterrada no confronto com o candidato republicano, cujo estilo era baseado em gabolices, mentiras deslavadas e ofensas dirigidas aos adversários. Como escreveu um comentarista, “fazer campanha contra Donald Trump significa ser arremessado num pátio de escola” (Empoli, 2022, p. 111).

Ainda assim, ele foi capaz de conquistar a indicação do Partido Republicano, derrotando lideranças consolidadas, como o governador Jeb Bush e o senador Ted Cruz, e outsiders de melhor pedigree, como a ex-presidente da corporação Hewlett-Packard (HP), Carly Fiorina; de reunir em torno de si todo o seu partido; de ganhar as eleições (ainda que graças às peculiaridades do sistema eleitoral estadunidense, já que Hillary Clinton ficou à sua frente nos votos populares); e de cumprir os quatro anos de mandato, a despeito das muitas evidências de incompetência, irresponsabilidade e ilegalidade. Em grande medida, o sistema político da democracia “mais consolidada do mundo” curvou-se a Donald Trump e a seus métodos.

A vitória do improvável candidato republicano em 2016 acendeu o alerta nos cientistas políticos anglófonos, mas não foi um caso isolado. Naquele mesmo ano de 2016, outras demonstrações eloquentes da crescente irracionalidade dos processos eleitorais foram visíveis pelo mundo afora. Um exemplo foi a vitória do Brexit, no pleito realizado no Reino Unido.

Mesmo os defensores da saída da Comunidade Europeia, a começar pelo futuro primeiro-ministro Boris Johnson, tinham consciência de que a medida era potencialmente desastrosa e imaginavam que sua campanha no plebiscito seria forçosamente derrotada, servindo apenas como maneira de credenciá-los à liderança da oposição.[1]

Na periferia do capitalismo, na Colômbia, sempre em 2016, o processo de paz foi derrotado no referendo convocado para sacramentá-lo. O acordo que colocava fim a décadas de uma guerra civil que deixara cerca de trinta mil mortos, construído após intensas e delicadas negociações, foi rejeitado por pequena margem de votos.

A campanha contrária ao acordo mobilizou argumentos cuja relação com o processo de paz era, no mínimo, obscura – por exemplo, relativos à ameaça da chamada “ideologia de gênero”, tornada tema central a partir de observações laterais sobre a reparação a famílias atingidas pelo conflito (González, 2017, p. 114-26; Rodríguez Rondón, 2017, p. 128-48).

Estendendo o intervalo de tempo, seria possível elencar muitos outros exemplos, mas estes bastam. As democracias liberais estavam em crise. Sua aposta central – de que um público desprovido de incentivos à participação e à informação política seria capaz, ainda assim, de chegar a decisões minimamente racionais quando chamado a opinar – mostrava-se cada vez menos factível.

Em 2020, Donald Trump foi derrotado na pretensão de permanecer no cargo, mesmo depois de promover uma agitação golpista destinada a questionar o resultado das urnas. Mas as transformações que ele impôs à política estadunidense não evaporaram por causa disso, isto é, a derrota de Donald Trump não significou a derrota do trumpismo ou, menos ainda, do seu estilo de fazer política. Pelo contrário, uma grande quantidade de pretendentes a cargos públicos mimetiza seu jeito agressivo e despreocupado seja com a verdade factual, seja com a correção moral.

A força que o ex-presidente mantém, seu poder intimidatório em todo o espaço político da direita, faz com que seus epígonos prestem vassalagem a ele. Em 2024, uma vitória por larga margem, desta vez também nos votos populares, reconduziu-o à presidência, sem que ele tivesse mudado de discurso ou de métodos — antes pelo contrário, parece ter reforçado suas apostas. Foi definitivamente enterrada a ilusão, alimentada por alguns após o pleito de 2020, de que a democracia liberal poderia voltar à sua morna normalidade.

O mesmo se pode dizer do Brasil. Jair Bolsonaro, que a seu modo reproduziu por aqui tudo o que Donald Trump fez nos Estados Unidos, está inelegível, mas o bolsonarismo, como forma........

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