Produção cultural: emancipação social, desenvolvimento econômico e a batalha pela soberania da classe trabalhadora
Introdução: A Cultura sob a Ótica do Materialismo Histórico-Dialético e da Paralaxe Classista
A emergência do manifesto subscrito por centenas de artistas, intelectuais, produtores e trabalhadores do setor cultural em apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, combinado a uma contundente exigência de reorientação estrutural da política pública para o setor, oferece um campo analítico privilegiado para o exame da luta de classes na atual conjuntura brasileira. Sob o instrumental do materialismo histórico-dialético e a categoria da paralaxe classista, o fenômeno transcende a imediatez de um documento de campanha eleitoral e revela contradições mais profundas da formação socioeconômica do país.
A paralaxe classista — enquanto fratura epistêmica que desmonta a aparência unificada e idílica da ideologia dominante — expõe o fosso existente entre duas concepções antagônicas sobre o papel da cultura:
A concepção burguesa/liberal: Trata a produção cultural como mera mercadoria de consumo, filantropia institucional, nicho de mercado ou mecanismo assistencialista restrito à distribuição periódica de editais e fomento fragmentário;
A concepção classista/materialista: Compreende a cultura como trabalho material e imaterial socialmente produtivo, força de coesão comunitária e componente decisivo da infraestrutura econômica nacional, vinculada à soberania popular, à reindustrialização do país e à emancipação das classes subalternas.
A adesão de mais de seiscentas figuras exponenciais da arte nacional — de nomes como Glória Pires, Chico César, Patrícia Pillar, Caio Blat, Irene Ravache, Arnaldo Antunes a pensadores e formuladores como Fernando Morais e Rosana Paulino — formaliza uma dialética madura: consolida uma barricada intransigente contra a regressão neofascista representada pela extrema-direita e pelo capital rentista, mas recusa peremptoriamente a capitulação burocrática, exigindo que o Ministério da Cultura (MinC) abandone o papel de mero balcão repassador de incentivos para assumir a condição de agente estratégico de soberania, política industrial e geração de riqueza e emprego digno.
A Determinação Econômico-Social: O Trabalho Cultural contra a Lógica do Rentismo
A análise materialista do setor cultural exige situar a cadeia produtiva das artes no interior da economia política contemporânea. A cultura não paira no éter da espiritualidade abstrata; ela mobiliza trabalhadores da técnica, montadores, contra-regras, iluminadores, operários têxteis, cenotécnicos, músicos, atores, escritores, designers, cineastas e a imensa malha da cultura popular nos terreiros, praças e periferias urbanas.
O manifesto dos trabalhadores da cultura toca na contradição central da gestão pública: a redução da política cultural à dispersão fragmentária de editais e fomento emergencial.
Embora leis estruturantes de emergência e recomposição financeira tenham garantido oxigênio material pós-desmonte bolsonarista, limitar a atuação do Estado a essa dimensão cristaliza uma lógica compensatória típica do neoliberalismo de terceira via. Na visão do capital financeiro, o fomento fragmentado opera como uma esmola controlada que mantém a dependência da classe trabalhadora da cultura em relação a........
