Terra: haverá paz?
A reflexão aqui proposta acompanha a humanidade desde que os primeiros agrupamentos humanos abandonaram o nomadismo e passaram a produzir excedentes agrícolas. Enquanto a sobrevivência dependia exclusivamente da caça e da coleta, pouco havia a conquistar além do necessário à própria subsistência. Mas, quando surgiram as primeiras cidades na Mesopotâmia, no vale do Nilo, no Indo e na China, nasceu também uma nova realidade histórica: o excedente econômico. A partir daquele momento, tornou-se possível acumular riqueza, controlar estoques de alimentos, apropriar-se da terra, organizar exércitos permanentes e estabelecer hierarquias políticas cada vez mais complexas. A guerra deixou de ser apenas uma disputa pela sobrevivência imediata para converter-se em instrumento de conquista de riqueza e de poder.
A violência, entretanto, não surgiu do nada, tampouco se tornou autonomamente o motor da história. Antes dela esteve o desejo de apropriação; antes da guerra, a vontade de acumular. Os exércitos não foram organizados porque os homens simplesmente desejavam combater, mas porque havia terras, alimentos, metais, escravos, rotas comerciais e riquezas a conquistar, proteger ou ampliar. A acumulação constituiu o impulso; a força militar tornou-se o instrumento histórico empregado para realizá-la.
Desde então, a história parece mover-se segundo um padrão recorrente. Povos conquistam outros povos, incorporam suas riquezas, submetem sua mão de obra, controlam suas terras e organizam sistemas de dominação capazes de concentrar, em um centro político, os frutos do trabalho produzido nas periferias conquistadas. Egípcios, assírios, persas, macedônios, romanos, árabes, mongóis e tantos outros impérios construíram sua prosperidade sobre essa mesma lógica. Mudavam os idiomas, as religiões e os governantes; permanecia praticamente inalterado o desejo de acumular riqueza, encontrando na força militar o instrumento mais eficaz para realizar esse objetivo.
Ao longo dos séculos, não se modificou a finalidade dessa dominação; apenas se sofisticaram os meios colocados a seu serviço. A espada foi sucedida pelos canhões; os canhões pelos encouraçados; estes pelos porta-aviões, pelos mísseis, pelas armas nucleares e pela supremacia tecnológica aplicada à guerra. Mudaram as armas, ampliou-se sua capacidade destrutiva e aperfeiçoou-se a organização dos exércitos, mas o propósito permaneceu extraordinariamente semelhante: assegurar àqueles que detinham maior poder militar a apropriação e a concentração das riquezas produzidas em escala cada vez mais ampla.
O advento do capitalismo não eliminou essa lógica histórica. Ao contrário, conferiu-lhe uma dinâmica inédita. A riqueza deixou de depender predominantemente da posse da terra para organizar-se em torno da acumulação do capital. A expansão dos mercados tornou-se condição permanente para a continuidade dessa acumulação. A concorrência passou a exigir crescimento ininterrupto, ampliação comercial, apropriação de matérias-primas, energia, territórios estratégicos, força de trabalho e mercados consumidores.
O capitalismo não substituiu as guerras de conquista. Universalizou sua lógica e ampliou sua escala. Se os impérios antigos conquistavam terras para arrecadar tributos, incorporar escravos e saquear riquezas, os impérios capitalistas passaram a disputar continentes inteiros, fontes de energia, recursos minerais, populações consumidoras e espaços de investimento. A acumulação deixou de ser uma consequência eventual da conquista e transformou-se no princípio permanente de organização do sistema econômico.
A economia adquiriu dimensão global, mas a força das armas continuou acompanhando e garantindo sua expansão. O colonialismo europeu, a constituição dos grandes impérios ultramarinos, a escravização de povos africanos, a expropriação das riquezas das Américas, as guerras mundiais e a permanente disputa pela supremacia militar representam momentos distintos de uma mesma trajetória histórica: a busca incessante pela concentração de riqueza e pela preservação do poder daqueles que a acumulam.
É sob essa perspectiva histórica que se deve compreender a sucessão dos grandes........
