Parem de invocar os céus
Parece que o destino, com seu senso de humor por vezes macabro, resolveu ilustrar literalmente a metáfora que desenhei neste mesmo espaço na semana passada. Quando alertei sobre o perigo de invocarmos as Erínias — aquelas fúrias vingativas da mitologia grega — para o centro do debate político, não imaginava que a resposta da natureza viria sob a forma de uma descarga elétrica fulminante sobre a Esplanada dos Ministérios. O raio que atingiu dramaticamente a marcha do deputado Nicolas Ferreira poderia, aos olhos de um leitor de Ésquilo, soar como uma intervenção direta do Olimpo, um castigo dos deuses contra a hubris desmedida dos homens. Mas é preciso frear o pensamento mágico aqui mesmo. Não estamos em uma tragédia grega, mas no Brasil de 2026, onde a eletricidade obedece à física, e não à moral. A “coincidência” entre o meu alerta sobre as fúrias e o estrondo nos céus de Brasília cessa onde começa a responsabilidade civil: o que vimos não foi a ira divina, mas a imprudência profana de líderes que expõem multidões ao perigo e, quando o inevitável ocorre, ousam chamar o desastre de desígnio sagrado.
Há momentos em que a irresponsabilidade cobra seu preço com uma violência que dispensa metáforas. Qualquer estudante de ensino fundamental sabe que não é nada prudente erguer dois guindastes metálicos aos céus em campo aberto durante uma tempestade. O raio que feriu manifestantes na última terça-feira trouxe o debate político de volta ao chão duro da realidade material. Aos feridos, nossa solidariedade irrestrita, pois a dor nivela a todos; mas aos organizadores, cabe o escrutínio severo de quem trocou a segurança pela estética do espetáculo.
No entanto, passado o susto e prestado o socorro, a análise política é obrigada a voltar à cena do infortúnio, não para perscrutar os desígnios divinos, mas para investigar a irresponsabilidade humana. E é aqui que a tragédia climática se converte em farsa retórica. Ver milhares de pessoas expostas em campo aberto, sob a tempestade típica do verão no Planalto Central, obedecendo a convocação de líderes que parecem mais preocupados com a estética de........
