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Das estranhas coincidências que assolam a América Latina

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29.06.2026

Houve um tempo em que a América Latina inteira pareceu adoecer da mesma febre ao mesmo tempo. Brasil em 1964. Bolívia em 1971. Uruguai e Chile em 1973. Argentina em 1976. Some-se a isso o Paraguai de Stroessner, que vinha de antes e atravessaria tudo, a longa série de golpes peruanos, os regimes centro-americanos sustentados a ferro. Entre meados dos anos 1960 e meados dos 1970, um continente que ia da fronteira mexicana à Patagônia caiu, peça por peça, sob botas militares. Na época, explicaram-nos que era reação. Reação popular e institucional à ameaça comunista, dizia-se, como se cada país tivesse, por conta própria e por puro instinto de sobrevivência, chegado à mesma conclusão e tomado a mesma providência no mesmo intervalo de poucos anos. Uma coincidência, portanto. Uma notável, simétrica, conveniente coincidência.

Demorou, mas a história desmontou a coincidência. Com a abertura de arquivos, o trabalho de comissões da verdade e décadas de pesquisa documental, o que era apresentado como espasmo defensivo de sociedades amedrontadas revelou-se outra coisa: um programa. Havia um esforço coordenado — hoje chamaríamos de regime change, termo que então sequer existia — pelo qual o governo dos Estados Unidos financiou desestabilização onde lhe convinha. Dinheiro para protestos. Dinheiro para agitadores. Dinheiro e cobertura para golpes. Pressão sobre instituições, compra e captura de meios de comunicação, mobilização de setores da Igreja católica como aríete ideológico, listas de pessoas a serem eliminadas, treinamento de torturadores, articulação de polícias políticas que mais tarde se coordenariam na Operação Condor. Os golpes militares na América Latina não foram coincidência. As ditaduras não foram coincidência. Foram produzidas, e há papel timbrado provando.

Vale recuperar, a título de método, um episódio anterior e geograficamente distante, porque ele ilumina o que veio depois. No Vietnã do Sul, no começo da Guerra Fria, os Estados Unidos não se contentaram em escolher o lado anticomunista — fabricaram-lhe a vitória. No referendo de 1955 que destituiu o imperador Bao Dai e entronizou Ngo Dinh Diem, a contagem oficial deu a Diem números fisicamente impossíveis: em Saigon, mais votos do que eleitores registrados, com totais que ultrapassavam em centenas de milhares o eleitorado existente. Cédulas falsificadas, urnas infladas, um resultado coreografado de fora para dentro. O ponto não é a fraude em si, que foi grosseira; é a doutrina que ela inaugura. Quando a urna não entrega o resultado desejado, fabrica-se o resultado e chama-se aquilo de democracia. A democracia vira embalagem; o conteúdo é decidido........

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