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O Agente Secreto e a pedagogia incômoda da memória brasileira

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07.02.2026

O filme O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho e protagonizado pelo prestigiado ator Wagner Moura, acompanhado por um elenco afinado de grandes talentos da dramaturgia brasileira, materializa na tela os reveses da memória histórica de um dos períodos mais sombrios do país os “anos 1970”, no auge do regime militar em que eram presidentes os ditadores General Emílio Garrastazu Médici (1969-1974) e General Ernesto Geisel (1974-1979). 

Por meio da atuação magistral de Wagner Moura, o filme retrata a saga de um professor de uma universidade pública do Nordeste, um cientista comprometido com um projeto de país soberano, cujo avanço científico confrontava interesses tanto internos quanto externos. Sob a tutela do imperialismo norte-americano e das elites locais associadas, iniciativas capazes de alterar a configuração do país eram sistematicamente sufocadas. A ciência, como a política, só era tolerada enquanto não ameaçasse privilégios ou o controle do domínio social.

Tempos marcados pela repressão política, pela censura sistemática, pela corrosão dos direitos humanos, pelo saque de corpos e consciências e pela tentativa deliberada de silenciar aqueles que não se curvavam à lógica criminosa e autoritária. Nesse cenário, a diversidade especialmente a de gênero era tratada como ameaça a ser eliminada.

A perseguição a homossexuais, travestis e pessoas trans retratadas em cenas no filme não foi um efeito colateral do regime, mas parte estruturante de um projeto moralizante e violento, sustentado tanto pela ação direta do Estado quanto pela conivência de uma sociedade conservadora, moldada por valores patriarcais, hipócritas e heteronormativos. O filme desnuda esse passado, expondo suas entranhas.

Kleber Mendonça Filho construiu uma narrativa que se recusa ao conforto da nostalgia e aposta numa pedagogia do incômodo. Ao resgatar elementos do imaginário popular, como a lenda da perna cabeluda, o diretor mistura realismo histórico e fabulação crítica, criando um espelho distorcido e por isso mesmo mais verdadeiro das várias nuances das agressões vivenciadas no dia a dia da sociedade brasileira.

Não por acaso, O Agente Secreto tornou-se um fenômeno internacional. Em 2026, acumulou mais de cinquenta prêmios e quatro indicações ao Oscar (Melhor Filme, Filme Internacional, Elenco e Ator para Wagner Moura), além da vitória no Globo de Ouro. 

Esse reconhecimento externo não é apenas artístico, revela como o mundo lê, com clareza desconcertante, aquilo que o Brasil insiste em relativizar a cumplicidade histórica de suas elites com a barbárie.

O longa-metragem tem alcançado públicos diversos, com destaque no Brasil entre pessoas que herdaram as marcas do período autoritário na história de suas famílias, bem como entre aquelas que tomaram conhecimento das violências desse período por meio das pesquisas e investigações da Comissão Nacional da Verdade. Criada pela Lei nº 12.528/2011 e instalada em 2012, durante o governo da presidenta Dilma Rousseff. Esta Comissão teve como missão apurar e esclarecer violações de direitos humanos cometidas entre 1946 e 1988, assegurando o direito à memória e à verdade histórica e contribuindo para a reconciliação nacional.

Durante quase duas horas de projeção, entre cenas de violência, de perseguição, de roubo da liberdade, das vidas relegadas à clandestinidade, perseguidas pelo sistema, o público se depara com o resgate histórico num labirinto cênico dos anos de chumbo, racionalizado em gavetas na memória do país. 

Os expectadores atentos contrastam com olhos inquietos, atravessados........

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