Mentiras que parecem verdades voltam a rondar as eleições
Às vésperas de mais uma eleição presidencial, o Brasil volta a assistir ao ressurgimento de um itinerário conhecido. Em meio ao acirramento da disputa política, às tensões diplomáticas e à multiplicação de investigações de grande repercussão, versões, boatos e acusações voltam a disputar espaço com os fatos, fazendo com que mentiras travestidas de verdades reapareçam com força no debate público.
No plano internacional, as sucessivas investidas do governo Trump contra o Brasil, acrescidas da inédita escalada nas relações diplomáticas, ganharam novo contorno com a revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, medida excepcional, interpretada como forma de pressionar o governo brasileiro a destravar a indicação do novo embaixador norte-americano em Brasília. Vale ressaltar que a diplomacia brasileira não recusou a indicação de Daniel Peres, apenas deixou de conceder o agrément porque Washington rompeu com a praxe diplomática internacional ao anunciar publicamente o nome do indicado antes de obter a anuência formal do Brasil, procedimento consagrado pela Convenção de Viena e pelos costumes diplomáticos. Em uma reação articulada pelo partido de Trump, o Senado americano aprovou, na sexta-feira (06/08), o indicado de Trump à embaixada no Brasil. Com maioria de senadores republicanos, Trump contorna o descumprimento dos trâmites diplomáticos internacionais. Todavia, Daniel Peres ainda dependerá do aval do presidente Lula para assumir o cargo.
Acerca desse clima entre Brasil e EUA, o presidente Lula afirmou que pretende conversar com Donald Trump nos próximos dias. A providência de Lula visa colocar a diplomacia na mesa para negociar o fim do conflito na Ucrânia, entre outros assuntos pertinentes. O movimento, contudo, ainda depende de confirmação oficial. Na América do Sul, os reiterados e graves ataques verbais do presidente argentino ao presidente Lula e o consequente rebaixamento das relações diplomáticas entre Brasil e Argentina ao nível de encarregados de negócios também compõem o cenário de crescente tensão política que antecede as eleições brasileiras. No plano doméstico, os inquéritos instaurados envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, intencionalmente apelidado pela imprensa de “Lulinha”, e o ex-chefe de gabinete do governo, Marco Aurélio Santana Ribeiro, adicionam novos elementos de desgaste político e alimentam um cenário que pode afetar a disputa pela reeleição do presidente Lula, único candidato do campo progressista de esquerda.
As pesquisas de intenção de voto, divulgadas nesta semana, indicam uma redução da diferença entre Lula e Flávio Bolsonaro. Embora o presidente continue liderando tanto no primeiro quanto no segundo turno, os levantamentos revelam que uma parcela do eleitorado ainda oscila entre os dois candidatos. Esse dado causa perplexidade diante de fatos amplamente conhecidos que comprometem a imagem de Flávio, como sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, preso em investigação que apura suspeitas de crimes financeiros, além da ausência de esclarecimentos sobre a prestação de contas prometida a respeito da utilização do vultoso aporte financeiro recebido para a produção do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Agrega-se a isso um histórico recorrente de declarações falsas ou desmentidas, da insistência em lançar dúvidas sobre a segurança das urnas eletrônicas à aliança com Donald Trump em iniciativas que confrontam interesses do próprio Brasil.
A permanência de uma parcela expressiva do eleitorado disposta a relativizar esses fatos sobre Flávio não pode ser compreendida apenas pelas situações isoladas, mas também pelo ambiente político e comunicacional em que a corrida eleitoral se desenvolve. A mídia hegemônica, tradicionalmente atuante na formação da opinião pública com sistemáticas críticas aos governos progressistas, a capacidade de mobilização coordenada da oposição nas redes sociais, o fortalecimento da ala bolsonarista inescrupulosa e truculenta, acostumada a deturpar a natureza dos fatos pelo uso de fake news, e os recentes episódios envolvendo investigações de pessoas ligadas ao governo compõem um ambiente político particularmente adverso. Nessa atmosfera inóspita, argumentos........
