América Latina: o grande laboratório (parte 2)
A segunda fase caracteriza-se por uma ingerência imperial mais intensa contra as instituições democráticas dos países-alvo, combinando manipulações institucionais e ações extrainstitucionais, violentas ou não, que envolvem violações grosseiras do direito internacional. Caracteriza-se também por duas linhas novas de ingerência: o cristianismo político e a participação crescentemente invasiva de Israel. Daí a designação de guerra híbrida. A escala da ingerência reacionária aumenta exponencialmente nesta fase, os seus instrumentos são tão sofisticados que reduzem a soberania dos países a brinquedos de criança ou a anedotas de café, e o número de países envolvidos não para de crescer. Está em curso um vasto processo de recolonização cuja forma política é o fascismo global. Está em curso uma Internacional de extrema-direita cujos alvos privilegiados são os países da América Latina e a Europa.
Dado o caráter secreto do que se planeia, só podemos identificar as táticas e as estratégias de maneira indiciária, através da sua aplicação concreta no terreno das operações de contrainsurgência. É bem possível que o âmbito delas seja muito maior do que o detetável nas ingerências conhecidas. Logo no início de 2026, três casos merecem destaque particular: a Venezuela, as Honduras e a Colômbia. O fato de em tão pouco tempo termos assistido a três intervenções tão diversas, embora igualmente intensas, revela um plano de intervenção muito ambicioso. Neste grande laboratório, o departamento de opressão está a trabalhar a todo o gás.
O que ocorreu na Venezuela desde janeiro de 2026 não tem precedentes na história recente da América Latina. A ingerência imperial na política interna venezuelana vem de longe e intensificou-se muito desde que Hugo Chávez iniciou a revolução bolivariana no princípio do milênio. Apesar do forte discurso anti-imperialista de Chávez, as relações comerciais com os EUA continuaram, sobretudo no petróleo. Personalidade carismática, Chávez manifestou desde o início a intenção de exercer soberania total sobre os recursos naturais do país, para com os rendimentos deles melhorar as condições de vida de populações que até então não tinham beneficiado da imensa riqueza nacional. Criaram-se vastos programas de redistribuição social, entre os quais viriam a sobressair as misiones, intervenções em áreas como a saúde, a educação e as infraestruturas, organizadas à margem das regras burocráticas de intervenção estatal. Nasceu assim uma forma de Estado paralelo que granjeou imensa popularidade a Chávez e ao mesmo tempo exacerbou a oposição interna das classes sociais que até então tinham beneficiado, direta ou indiretamente, das rendas do petróleo geradas e distribuídas pelo “Estado Mágico”, na designação do grande cientista social venezuelano Fernando Coronil. Em textos anteriores analisei, com solidariedade e com crítica, o processo bolivariano, liderado por Chávez até à sua morte prematura em 2013 e depois pelo seu sucessor, o anterior vice-presidente Nicolás Maduro.
Neste texto refiro apenas que a política regional e internacional de Chávez e de Maduro violou várias linhas vermelhas do imperialismo norte-americano. Uma solidariedade concreta sem precedentes com Cuba. Uma política regional que promovia a organização dos países do subcontinente fora da tutela dos EUA. Relações políticas e comerciais privilegiadas com a China, a Rússia e o Irã. Uma política de gestão do petróleo que poderia vir a ameaçar a posição do dólar como moeda de reserva mundial.
A resposta imperial não se fez esperar. Incluiu desde cedo os instrumentos de ingerência hoje generalizados: golpe de Estado, tentativas de assassínio, embargos, sanções, confisco de reservas depositadas no estrangeiro, deslegitimação do presidente eleito e promoção internacional de um presidente fantoche, farsa em que a União Europeia participou alegremente. Como nada disto resultou, a componente militar da ingerência foi-se intensificando, com o bombardeamento de pequenos barcos em águas territoriais venezuelanas sob o pretexto de transportarem droga. Nasceu assim a caracterização do Estado bolivariano como Estado narcoterrorista. Foi a primeira grande ampliação do conceito de terrorismo, a que outras se seguiriam, como veremos.
Em 3 de janeiro, forças especiais dos EUA capturaram durante a noite o presidente Nicolás Maduro e a mulher, mataram mais de duas dezenas de militares da guarda presidencial, na maioria cubanos, e levaram o casal para os EUA, para que Maduro responda perante a justiça norte-americana por alegadas ligações ao tráfico de droga. Neutralizaram também todo o sistema de defesa antiaérea. Depressa se restaurou a “normalidade”, com a vice-presidente Delcy Rodríguez a assumir a presidência da República.
Soube-se pouco depois que a gestão da produção e do comércio do petróleo passara para empresas norte-americanas e que os rendimentos petrolíferos, em vez de entrarem no Tesouro venezuelano, entrariam no Tesouro dos EUA, de onde seriam distribuídos à Venezuela segundo critérios definidos pelas autoridades norte-americanas, isto é, pelo secretário de Estado Marco Rubio. Em poucas semanas, a anti-imperialista Venezuela da Revolução Bolivariana estava reduzida à condição de protetorado norte-americano, gerido pelo........
