A hora de André Ventura não chegou
André Ventura (AV) é o líder da extrema-direita portuguesa. Com alguma razão, diz que na segunda volta das eleições presidenciais (8 de fevereiro) é ele o candidato da direita tout court. De fato, na segunda volta os dois candidatos são ele e António José Seguro (AJS), antigo secretário-geral do Partido Socialista (2011-2014), que se apresenta como candidato do centro-esquerda, humanista, progressista. Muitos antigos dirigentes e conhecidos militantes da direita moderada têm manifestado o seu apoio a AJS, o que mostra que só formalmente e por um período curto AV se pode designar líder da direita. Dados os evidentes sinais de rejeição de AV, é muito provável que AJS ganhe as eleições e seja o próximo Presidente da República portuguesa.
Prognosticar que a hora de AV não chegou é relativamente fácil. As grandes questões são duas: a hora de AV ainda não chegou ou não chegará nunca? E se a resposta for a de que ainda não chegou, a segunda questão é: O que deve ser feito para que nunca chegue? Claro que esta última pergunta só é feita por quem, como eu, não queira que Portugal volte a ser governado pela extrema-direita. Foi apenas há 52 anos que Portugal pôs termo a um regime de extrema-direita que durou 48 anos. O grande líder desse longo e trágico período foi António de Oliveira Salazar, a personagem a que AV tem apelado, afirmando que "Portugal precisa de três Salazares". Portanto, quem estiver de acordo com o que esta frase revela fará a pergunta oposta à minha: O que deve ser feito para que a hora de AV chegue o mais rapidamente possível?
A questão de saber se a hora de AV chegou ou não é uma questão existencial para os democratas portugueses porque, ao longo da sua mais recente carreira política e tendo em conta os dirigentes de que se rodeou ou que a ele se chegaram, AV tornou-se um perigo para a sobrevivência da democracia portuguesa. No subconsciente coletivo dos democratas portugueses domina a ideia de que a democracia portuguesa é muito frágil e que pode ser facilmente destruída por qualquer pulsão autoritária. Aliás, é bem possível que AV esteja bem ciente desse subconsciente coletivo e jogue com ele. Sabe que com a sua demagogia assusta os democratas, mas, ao mesmo tempo, alimenta a pulsão autoritária que o pode levar ao poder.
Significa isto que AV seja fascista? Não. Significa apenas que as mudanças que diz querer levar a cabo e a retórica violenta com que as formula faz crer que ou deseja impor uma ditadura ou está conscientemente a correr o risco de soltar forças autoritárias que podem vir a impor a ditadura, inclusive contra a sua vontade. Por isso, o perigo de AV para a democracia é duplo: reside no que ele controla e no que ele solta e não controla.
A ideia da fragilidade da........
