Capitão Bolsonaro e a carta da capitania hereditária
Jair Bolsonaro decidiu recorrer à caligrafia como instrumento de poder. Uma carta escrita à mão — aparentemente anacrônica como um pergaminho em plena era digital — para confirmar a indicação do filho Flávio Bolsonaro à Presidência da República, lida pelo próprio herdeiro minutos antes da cirurgia do patriarca. A cena, com direito a hospital, drama e aura messiânica, mistura teatro religioso, novela familiar e cálculo político frio.
Nada ali é improviso. A carta não foi escrita para convencer eleitores indecisos. Foi escrita para organizar o campo bolsonarista, disciplinar aliados e, sobretudo, reafirmar quem manda no espólio político do clã.
A carta: quando a política vira testamento - O simbolismo é direto. Jair, inelegível e politicamente emparedado, escreve como quem redige um testamento. Não governa, mas designa. Não disputa, mas unge. A carta não traz programa, não articula alianças, não resolve contradições. Cumpre outra função: sinalizar que, mesmo fora do jogo formal, o comando permanece em casa.
A leitura pública, às vésperas de uma cirurgia, não é detalhe: transforma o gesto político em rito de passagem. O pai sofre, o filho herda. O bolsonarismo entrega-se a uma cena de sucessão quase monárquica — com direito a comoção e silêncio reverente.
Família antes do movimento - Ao sacramentar Flávio, Jair resolveu uma disputa interna e abriu outra. Michele Bolsonaro, que vinha sendo tratada como possível alternativa eleitoral, especialmente pelo apoio consolidado entre evangélicos, foi empurrada para a periferia do projeto. O recado foi claro: popularidade própria não compensa risco político. Melhor um filho previsível do que uma aliada com autonomia.
O bolsonarismo reafirmou sua lógica interna: família, sim — desde que de sangue. Ao sacramentar o sobrenome antes do movimento, limita conscientemente sua capacidade de ampliar alianças.
O enterro simbólico de Tarcísio - Antes da carta, parte relevante da Faria Lima, do Centrão e da direita institucional apostava em Tarcísio de Freitas como candidato viável, competitivo e menos rejeitado. A indicação de Flávio não apenas esvazia essa........
