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A freira Luzia chamava por mim

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26.03.2026

Nos anos 70 do século passado, as bandas filarmónicas eram solicitadas para serviços com grandes arraiais que se prolongavam para lá das quatro da madrugada. Vassal cumpria esse ritual.

Pelas quatro horas, era tocada a última marcha de despedida das duas bandas, porque esta grandiosa festa, em honra de Nossa Senhora da Encarnação, era enriquecida com muita música e muita fé.

Nesse tempo, havia em Vassal uma casa religiosa feminina que dava apoio espiritual ao povo… lugar de recolhimento e de orações moduladas de perfume religioso — essência da alma que chorava e gemia como prece de sanfona…

A freira aguardava a Banda de Mateus como quem espera uma visita de bispo ou ministro. Falava entre si, olhava discretamente os músicos, e quando me descobria entre o grupo, iluminava-se-lhe o rosto com uma espécie de júbilo infantil, ou carícia de pureza.

— Como vai, senhor maestro! — murmurava, com uma satisfação que mal cabia no silêncio do traje rigoroso…

E então vinha ao meu encontro cheia de pressa. Apertava-me as mãos com delicadeza, perguntava pela viagem, e dizia, com uma alegria que parecia nascer da própria alma:

— Que bom que vieram outra vez! Sem a vossa banda, a festa não seria a mesma…

Naquele instante percebia-se que a música não era apenas divertimento. Para a freira Luzia, a banda era também uma forma de oração — uma espécie de louvor que subia ao céu em forma de marcha, valsa, rapsódia ou balada.

E eu, entre o sorriso e a surpresa, sentia-me acolhido como se fosse parte daquela pequena comunidade. Talvez, por isso, os seus olhos brilhassem tanto: porque na música da banda encontrava também um eco da alegria divina que procurava nas suas orações.

Luzia, nas várias refeições, dividia-se entre a comida e o olhar que, vezes sem conta, se prendia em mim… esse olhar tinha brilho; uma transparência total, quase pureza infantil.

As palavras que me dirigia eram frescas como ribeiros correndo com aromas fluidos de cor e alegria.

Falava com uma simplicidade desarmante. E naquele ambiente, entre a festa da música e o bulício da aldeia, a sua presença parecia trazer uma claridade serena — como se, por instantes, a própria música se tornasse também oração.

À noite, no arraial, a freira Luzia esteve presente… ouviu, olhou e olhou. E a música, por mim dirigida, subiu mais alto, mais longe, como se quisesse tocar o céu…

Nos dois anos seguintes, a Banda de Mateus voltou a Vassal. À chegada, lá estava a freira Luzia, agora, acompanhada com duas irmãs… Nos rostos, bailavam sorrisos doces e iluminados por uma centelha divina.


© A Voz de Trás-os-Montes